Requiem pela casa com os n.º 53-55, na rua de São Sebastião. (Porto)

terça-feira, 19 de setembro de 2017

  
Aspecto geral da casa com os n.º 53-55 e do nicho, da rua de São Sebastião, junto à Sé do Porto. 
Uma sólida construção do século XVII, aqui visível em dois clichés obtidos por Teófilo Rego por volta de 1958.
Cliché de Teófilo Rego
Costureirinha da Sé - 1959 - "Barbearia Bocage"
O edifício com o nicho. Um dos vários locais, que serviram de "palco" para a realização do filme português "A Costureirinha da Sé" em 1959. Fotogramas do filme citado.
As duas fotografias que se seguem, foram obtidas em Setembro de 2017. Do secular edifício, resta a fachada, suportada por vigas metálicas, já tão enferrujadas e deformadas, que a estrutura aparenta um eminente colapso. É mais que urgente uma intervenção!!! Se nada for feito, muito em breve, tudo se perderá.
 Cliché de Alexandre Silva
 No nicho (agora vazio) podemos ler uma data: 1699

Fonte Milenária de Águas Santas. (Maia)

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

 Fonte Milenária de Águas Santas
Não é (para já) exactamente uma "fonte desaparecida", mas está bem escondida, esquecida e é totalmente desconhecida por muitos dos moradores da própria Freguesia.
A história desta fonte, prende-se à lenda do próprio local e tem pelo menos duas versões, sendo uma delas sustentada por um insigne habitante de Águas Santas, o Dr. Joaquim Moutinho dos Santos, dirigida a António Arroio e que este transcreve no livro "Singularidades da Minha Terra".
Afirmou o Dr. Joaquim Moutinho dos Santos a António Arroio em 1897:

«(...) fonte de abobada oval em toda a sua amplitude, hermeticamente fechada, dando apenas entrada aos aljôfares de puríssima agua que borbulhava do fundo, a qual estava situada no sopé do Mosteiro e, poucos anos antes, havia» sido deslocada do seu leito e transformada em uma cisterna lodosa e despojada de suas aguas perennes, a ponto de seccar em tempos áridos, «destruição sacrilega esta que é o assassinato mais estúpido que encontramos na meditação da nossa historia e não podemos por elle deixar de responsabilisar a memoria do parocho que então presidiu a tal offensa ! »

E diz António Arroio:

E apesar desta outra arremetida, também quasi logo acompanhada dos mais altos elogios ao pároco que três anos depois destruia as arcarias da igreja, o nosso doutor continua :

«Esta fonte, bem como Jesus Christo e S. João, baptisou-se a si com o sangue martyr das filhas de Calcia, e baptisou a freguezia pelo martyrio dos primeiros christãos que ali soffreram. Ás filhas de Calcia e Catilla Severo, regulo bracharense e cônsul nas terras da Maia, datam da era christã 138. E crivei que ali tiveram os romanos o seu templo, e que a sua divindade fora Maia, filha de Fauno, como idolo mais próprio dos romanos, que adoravam como deusa silvan, em lugares menos cultos; confirma d’alguma forma esta idea a existência d’um castello da Maia, perto do templo, cujos vestígios ainda ha quem lembre. E por consequência d’esta divindade passou o nome ás terras e ás famílias, e algumas dignas de memoria, como o célebre lidador Gonçalo Mendes da Maia, do século 9.°. Assim como bem perto desse castello existe um lugar denominado Picoa, que alguma originalidade tem de Pico, pai de Fauno da familia endeusada Maia, que parece não se deixou confundir com Maia, mãi de Mercúrio.

«O nosso fim, que era saber o nome e baptismo da freguezia de Aguas Santas, é o que vai coroar a nossa obra e deixar-nos cônscios de sua realidade.

«Ao pé d’aquella decantada fonte, como a descrevemos, soffreram as três filhas de Calcia, Basilia, Germana e Victoria, o antecipado martyrio que as beatificou, com Wilge Forte, que as capitaneava e instruía na religião do Crucificado, e habitavam em Silva-Escura em um erimiterio, onde se escondiam á perseguição dos idolatras infiéis. Ali aprehendidas pelos idolatras romanos foram martyrisadas junto áquella fonte, soffrendo flagícios e torturas, com que pretendiam fazel-as renegar da sua fé; não lhe poupariam a sede mortificadôra ao pé d’aquella agua refrigerante, augmentada com as suas lagrimas, e de Wilge Forte, que jamais as desacoroçoou da firmesa da sua crença.

«Aquella fonte era como dissemos oval e fechada, só tinha a meia laranja o lugar por onde lançava a agua. Em algum tempo bem remoto a fonte foi arrombada pelo lado d’onde sahia a agua, e consta que dentro se achou a imagem da Santa Virgem, que as Santas lá poderam introduzir, para não ser queimada pelos infiéis. Não sabemos se antes do seu apparecimento ou depois, os povos deram ás aguas d’aquella fonte o nome de Santas, e pegaram a usar d’ella como virtuosa em certas enfermidades ophtalmicas e cutâneas; virtude que foi esquecendo com o tempo. O que é certo é que desde o principio do christianismo tem feito muitas almas christãs, e graças ao zelo do actual parocho da nossa freguezia, o Rev.do António de Ascenção e Oliveira, que assim como tem reedificado e melhorado as condicções do templo, não deixará de decorar o lugar da fonte, fazendo-lhe restituir as Santas lagrimas das virgens, que ali verteram pelos mysterios da sagrada religião do Crucificado.

«Contando já da nossa parte, como holocausto, com a lapide commemorativa ás martyres que ali soffreram, com a seguinte legenda:

As três filhas de Calcia, que Wilge Forte
Na fé christã creou robustecidas.
Aqui, ás mãos dos impios homicidas,
Soffreram pela cruz do martyrio a sorte.

É vão supplicio ao justo! É gloria á morte;
Seu sangue em puras lagrimas vertidas
Orvalhos são do céo, que convertidas
As almas dos pagãos lhe mandam acorte.

Triumpho foi de Wilge em vêr Germana,
Basilia resignada, assim Victoria,
C’roada a sã virtude á mão profana!

Dezoito séculos contam lá na gloria
Das virgens, d’esta fonte o pranto mana
Em Aguas Santas correm por memoria !»

Termina António Arroio:

O bom do dr. Moutinho não conseguiu ver satisfeito o seu poético desejo. Os padres não fizeram caso, nem da fonte, nem do seu clássico cantor. Desprezaram-n’os. Pois, a meu ver, não valiam mais do que ele. E por isso aqui os deixo aos três, reunidos em póstumo, saudoso e jovial convívio.
No site da Junta de Freguesia de Águas Santas, podemos ler uma segunda versão, talvez mais popular e menos exacta:
Conta a lenda que em tempos remotos, mais propriamente cerca do século II depois de Cristo, existiu um convento na freguesia de Silva Escura do concelho da Maia. Nesse convento era venerada a Virgem Santa Maria, cuja imagem encimava o altar principal da capela do convento.
Certo dia, soube-se no convento que os romanos estavam prestes a atingir o Rio Ave na sua missão de destruir tudo que se relacionasse com os prosseguidores de Cristo na terra.
A madre-superiora do convento, de nome “Sophia”, receando que os romanos maculassem a imagem da Virgem, foi, pela calada da noite, acompanhada pelas noviças, Krissana e Mafalda, esconder a imagem a alguns quilómetros do local.
Depositaram-na embrulhada nuns panos no meio dum silvado, junto a uma fonte.
Regressaram ao convento. Três dias depois, o convento era invadido pelos romanos que chacinaram todas as freiras.
Tempos depois, uma mulher que fora buscar água à citada fonte, reparou que no meio do silvado estava qualquer coisa estranha. Tomou o embrulho, retirou os panos e deparou com uma linda imagem de Nossa Senhora chorando.
Aquela mulher correu a dar a notícia. Uma multidão veio ver e logo apelidaram a fonte de “FONTE DAS ÁGUAS SANTAS”.
Mais tarde, foi construída naquele local uma igreja que se passou a chamar a Igreja das Águas Santas.

Bibliografia e fontes:
- C.M.M
- J.F.A.S.
- https://issuu.com/aderitogomes2/docs/singularidades_da_minha_terra_de_an

Imagens:
-Alexandre Silva