O sinal de trânsito mais antigo da cidade de Lisboa.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Placa de 1686
Podemos ainda vê-la, numa parede, na Rua do Salvador em Alfama.
Esta placa foi mandada afixar por Sua Majestade, o Rei D. Pedro II, no ano de 1686, para orientar os veículos de tracção animal, como caleches, coches, carros de bois ou carroças que passavam por esta estreita artéria.
Na realidade o Rei mandou colocar/afixar 24 sinais de trânsito, mas desses 24 apenas este sobreviveu até aos nossos dias.

Citando:

ANO DE 1686
SUA MAJESTADE ORDENA
QUE OS COCHES, SEGES
E LITEIRAS QUE
VIEREM DA PORTARIA
DO SALVADOR RECUEM
PARA A MESMA PARTE

Na prática, quem descia perdia a prioridade em relação a quem subia a artéria.
Esta rua, actualmente vista como uma simples e estreita travessa, entre a Rua das Escolas Gerais e a Rua de São Tomé, teve no entanto uma relevante importância há cerca de 400 anos atrás, quando era o veio de ligação entre as portas do Castelo de São Jorge e a Baixa.
Quem desobedecesse a estes sinais de trânsito, pagaria 2 mil cruzados de multa e corria o risco de ser  exilado para o Brasil.

Gripe pneumónica de 1918-1919.

quinta-feira, 19 de março de 2020

Os valores exactos sobre o número total de vítimas mortais causadas pela gripe pneumónica de 1918-19, é absolutamente desconhecido. Ninguém pode apresentar um número com exactidão.
Os eruditos mais clássicos e talvez mais optimistas, têm defendido que a estimativa mais baixa será de 21 milhões de mortos, entre 1918 e 1919. Isto numa população mundial de quase 2 mil milhões, naquela altura. Outros estudos mais recentes feitos por epidemiologistas defendem no entanto que a pneumónica matou, pelo menos, 50 milhões de pessoas, aproximando-se talvez até do dobro, ou seja dos 100 milhões. A ser verdade, no período de pouco mais de um ano, a pandemia gripal matou mais pessoas do que a famigerada "Peste Negra" no período de um século e do que a Primeira Guerra Mundial (Cerca de 8 milhões de mortes, entre 1914 e 1918). Em Portugal também não existe um número exacto de vítimas. 50.000 ou 60.000 mortos, são os valores mais defendidos. Temos de ter em conta que a maioria dos países, não possuía ainda recenseamentos populacionais e existe ainda a agravante de muitos casos terem sido mal diagnosticados...
Em final de Setembro de 1918, segundo relatos da época, na cidade de Lisboa e nos arredores da capital, as escolas estavam fechadas e sem previsão de abertura do ano lectivo, estavam também proibidas feiras e romarias.
Muitos dos estabelecimentos mantinham as suas portas trancadas ao público. 
Nos mercados da altura escasseavam bens alimentares de primeira necessidade como o pão, a carne e o leite, que aumentara consideravelmente de preço. As ruas estavam quase desertas e os eléctricos passavam com as cortinas e as portinholas sempre fechadas.
Na Junqueira, as pessoas aguardam a abertura do armazém regulador de preços a cargo da Assistência 5 de Dezembro, em 1918. Cliché de Joshua Benoliel in Arquivo Municipal de Lisboa
Thomaz de Mello Breyner, 4º conde de Mafra, médico no Hospital de São José, escreveu no seu diário pessoal:

"19 de Outubro: "Fui ao Hospital e lá tive a certeza de que a epidemia de gripe pneumónica continua assustadora. Em média entram 100 doentes nos hospitais e morrem 30 a 40! Acabou-se em Lisboa o pano especial de cobrir caixões! Todas as flores da Praça são para os mortos."

"21 de Outubro: A mortalidade é medonha. Acabou-se o pano para forrar caixões, acabaram-se as flores no mercado, há enterros toda a noite!! Nem a peste grande 1569 foi assim!!!"

De facto, a situação atingiu tal magnitude que, em apenas um dia, realizaram-se 250 enterros; descobriram-se famílias inteiras mortas nas suas casas e a Direcção-Geral dos Hospitais Civis de Lisboa solicitou à Câmara Municipal para que abrisse uma vala comum no cemitério dos Prazeres.
Ambulância da Cruz Vermelha. Cliché de Joshua Benoliel in Arquivo Municipal de Lisboa
Dois dos videntes de Fátima, Francisco e Jacinta Marto, viriam a ser vítimas mortais da epidemia
Hilda Ophélia Paz dos Reis, filha de Aurélio da Paz dos Reis, seria também vítima da gripe. Aurélio nunca aceitaria a morte da filha de quem muito gostava. Hilda Paz dos Reis, na Praça de D. Pedro, c.1909
Segundo o professor de medicina Joaquim Alberto Pires de Lima, a quem a segunda vaga da epidemia apanhou no Vale do Ave, uma zona simultaneamente agrícola e altamente industrializada, não existiam dúvidas de que os mais afectados pela epidemia eram os que viviam em piores condições (Lima 1918). E o médico Costa Maia manifestou a sua concordância com esta posição na sua dissertação, ao afirmar que, “sem querer contestar a veracidade desta afirmação do ilustre professor” [Almeida Garrett], corrobora Pires de Lima ao sublinhar a importância das habitações sem condições higiénicas, insinuando que estas seriam os focos de onde as infecções irradiariam “unindo depois pobre e rico numa solidariedade fatal” (Maia 1920). Aliás, cita, em conclusão desta abordagem, o testemunho da mais importante autoridade médica em matéria de epidemias, Ricardo Jorge, que dirigiu o combate à pandemia de 1918-19 em Portugal. Na opinião deste, o seu impacto foi maior sobre os mais pobres. Escreveu mesmo a este respeito numa obra coetânea em que procura fazer a síntese da pandemia: “Se todas as classes pagaram o seu tributo, ele pesou mais pesadamente sobre os mais humildes: os horrores da epidemia juntaram-se aos da miséria” (Jorge 1919, 25).
Viatura dos Bombeiros Voluntários Lisbonenses
Passado o período mais dramático, que ocorreu em Outubro, a epidemia foi-se atenuando e lentamente se desvanecendo ao longo do mês de Novembro.

Bibliografia:
-José Manuel Sobral e Maria Luísa Lima« A epidemia da pneumónica em Portugal no seu tempo histórico »Ler História, 73 | 2018, 45-66.-
- Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa
- Diário de Notícias
- Biblioteca Municipal do Porto

Capela da Quinta da Fraga ou do Senhor do Carvalhinho. (Porto)

domingo, 1 de março de 2020

A Quinta da Fraga teria sido criada por meados do século XVI, estando na posse de Francisco Dias e de sua mulher Isabel Pinto. Em finais do século XVI, os Jesuítas, instalados no colégio de São Lourenço no Porto, procuravam grandes espaços de produção e relaxamento. 
A quinta da Fraga localizada no monte das Fontainhas e com a frente virada para o rio Douro era o sítio ideal. 
Calçada da Corticeira, vista de Vila Nova de Gaia, por volta de 1860
Calótipo atribuído a Frederick William Flower 
 Pormenor do Calótipo atribuído a Frederick William Flower. Vemos a Casa e Capela da Quinta da Fraga
Segundo Jorge Ricardo Pinto, a quinta da Fraga estendia-se desde a actual Rua Duque de Palmela até às margens do rio Douro, tratando-se pois de um enorme território.
A quinta produzia nessa altura, milho (que permitia fazer broa e pão), frutas, produtos hortícolas variados e localizava-se numa zona rica em água, sendo que essa mesma água nascia na fonte de Mijavelhas e, entrando pela quinta do Bispo (actual cemitério Prado do Repouso) desviava-se depois para os terrenos da quinta, podendo assim alimentar os diferentes moinhos que o território possuía.
No de 9 de Fevereiro do Ano da Graça, de 1573 Francisco Dias doou a quinta aos padres Jesuítas com condições perpétuas de pagarem, por ano, 25 alqueires de milho, 10 alqueires de pão e 100 réis. Porém, em 1596, estas medidas foram suspensas pela própria Coroa e os jesuítas tornaram-se nos proprietários da quinta da Fraga.
Muito se poderia escrever sobre esta propriedade e a sua História, ao longo dos séculos, mas tal seria merecedor de um livro, pelo que vamos aqui resumir o mais pertinente.
Em consequência do inevitável crescimento e urbanização da cidade do Porto, que aos poucos adulterou a enorme propriedade, gostaríamos de referir um pormenor: A existência de mais de uma capela nesta pequena zona, uma que já mereceu uma publicação nossa que pode ser consultada AQUI e que actualmente se encontra em ruínas. Curiosamente ambas se intitulavam de "capela do Senhor do Carvalhinho". As ruínas da actual capela que se podem observar num ponto alto do monte das Fontainhas, à direita quem desce a calçada da Corticeira a capela do Senhor do Carvalhinho, da quinta da Fraga situava-se na margem do rio Douro. A capela de que ainda hoje existe, a uma cota mais elevada, era sem dúvida mais simples. 
Referindo George Balck, que identificou esta propriedade como sendo a capela da Senhora do Carvalhinho.
Pouco se sabe, infelizmente, sobre a actual capela em ruínas. 
Mas voltando à questão da aparentemente "verdadeira e autêntica" capela do Senhor do Carvalhinho. Desconhece-se a origem ou atribuição do nome "Carvalhinho" mas pensa-se que terá será a forma abreviada de "Senhor Jesus do Carvalhinho", a quem a capela era dedicada.
Em meados da década 20 do século XIX, antes do cerco do Porto, a propriedade
da Quinta do Carvalhinho que como já referimos estava localizada no fundo da encosta das Fontainhas, pertencia a António Joaquim Soares, do qual pouco se sabe. Durante o Cerco do Porto, a capela e as suas habitações seriam usados para quartel da marinha de D. Pedro IV, em função da sua localização, já que os barcos da marinha podiam estar atracados neste ponto da margem do Douro, fora do alcance dos miguelistas.
Em 1840, todo o terreno da Quinta do Carvalhinho é arrendado por Thomas Nunes da Cunha e António Monteiro Cantarino. A 13 de Novembro de 1841, os novos proprietários instalam-se na capela, nas arrecadações atrás da capela montam os fornos e os equipamentos necessários para produção de peças de cerâmica.
Em 1848, um depósito de louças situado na rua da Esperança associa-se à Fábrica do Carvalhinho, que em 1853 tem capital suficiente para finalmente comprar o terreno da Quinta do Carvalhinho e reconstruir a Capela do Senhor do Carvalhinho. De facto, existia uma inscrição na capela que dizia: “Reedificada em 1853 por seus proprietários Thomaz Nunes da Cunha e António Monteiro Cantarino.”
A Fábrica de Cerâmica do Carvalhinho foi fundada em 13 de Novembro de 1841 por Tomás Nunes da Cunha e António Monteiro Cantarino, tendo adoptado como nome de firma "Thomaz Nunes da Cunha & Cª". Instalou-se justamente na Capela do Senhor do Carvalhinho (que deu o nome à empresa), enquanto o forno e as oficinas funcionavam em alguns barracões anexos à fábrica. Apenas na década de 20 do séc. XX a fábrica de mudaria para Vila Nova de Gaia.
A capela do Senhor do Carvalhinho foi demolida em 1943 em consequência da abertura da Av. Gustavo Eiffel (marginal).
Capela do Senhor do Carvalhinho, sendo demolida em 1943 in AHMP
Bibliografia:
-AHMP - Arquivo Histórico, Casa do Infante
-Pereira, Hugo. 2007. Fábrica Cerâmica do Carvalhinho - História e Acção Social, Desportiva e Cultural. 1º 
Encontro de História e Investigação. Porto: Departamento de História e Estudos Políticos e Internacionais da Faculdade 
de Letras da Universidade do Porto. P. 4.
-Biblioteca Municipal do Porto