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Casa Oriental. (Porto)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

A Casa Oriental, no Porto, não desapareceu... modernizou-se.
A Casa Oriental foi fundada em 1910 no Campo dos Mártires da Pátria, n.º 111/112, próximo à Torre dos Clérigos tendo começado por comercializar produtos das colónias orientais e africanas. O café, o chocolate e os chás vendidos desde o início do século XIX, ainda hoje são evidenciados na fachada desta famosa mercearia, com a representação de uma cena da África Colonial, um atractivo para todos os turistas que visitam o Porto.
Após a 2ª Guerra Mundial, a gama de produtos aumenta e a Casa Oriental passou a vender produtos regionais portugueses: doçaria, enchidos e carnes fumadas, frutas, legumes, queijos, azeitonas, vinhos e licores. Passado o 25 de Abril de 1974 a loja é adquirida pelo actual proprietário, José Maria Gama, que decide fazer do bacalhau a imagem de marca da casa.
Casa Oriental antigamente
Reconhecendo a importância histórica do daquele espaço e compreendendo o impulso que o mesmo deu no passado a outros produtos icónicos da gastronomia portuguesa, a COMUR – Fábrica das Conservas da Murtosa confiou recentemente à Casa Oriental o exclusivo para toda a cidade do Porto da colecção “Valor do Tempo®”. 
Duas marcas de elevadíssima reputação que se unem por um só objectivo: retribuir à Sardinha Portuguesa o muito que esta já fez por Portugal.
A Casa Oriental é actualmente uma Mercearia Fina, com um interior remodelado, onde a beleza do estilo antigo se enquadra harmoniosamente com o novo, despertando a curiosidade da massa turística que actualmente visita o Porto.
Casa Oriental actualmente
Interior da Casa Oriental
 Enlatados da firma COMUR - Fábrica de Conservas da Murtosa
Fontes parciais: 
- casaoriental.pt
- www.conservasportuguesas.com/

Casa de Pasto "O Arranjadinho Barcelense". (Porto)

quarta-feira, 25 de abril de 2018

 Casa de Pasto «O Arranjadinho Barcelense», n.º 96
Clichés in AHMP
Vista da desaparecida Casa de Pasto, denominada por "Arranjadinho Barcelense" no nº 96 da Rua da Picaria, durante as obras de beneficiação da mesma, em 1939.
Posteriormente seria um stand de motocicletas, como pode ser visto clicando aqui
Perpectiva das obras de beneficiação da Rua da Picaria em 1939

Caixas de Toques de Incêndio. (Porto)

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Na cidade do Porto, durante o século XIX, foram criadas e espalhadas pelas várias freguesias da localidade, cerca de vinte e uma caixas de ferro fundido, sendo as mesmas sempre cravadas nas paredes da igreja principal das mesmas freguesias.
Na tampa, das caixas estava uma lista elaborada em alto-relevo de “Toques de Incêndio”, como por exemplo: Sé - 4 ou Carmo -15 (como podemos observar na fotografia).
 Caixa de Toques de Incêndio c.Alexandre Silva
Dentro destas caixas existia um manípulo ligado a um cabo ou corda, que se encontrava protegida por um cano de ferro e fazia ligação ao sino da igreja.
Em caso de incêndio, os populares simplesmente recorriam à caixa mais próxima, e puxavam o manípulo no número de vezes referentes à sua freguesia de forma a identificar o local.
Toques de Incêndio in AHMP

Obeliscos da Quinta da Prelada. (Porto)

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Os dois obeliscos com 12,6 metros de altura que actualmente se encontram no Jardim do Passeio Alegre (Foz) são os mesmo que originalmente se encontravam à entrada da Quinta da Prelada, tendo sido idealizados por Nicolau Nasoni, quando no século XVIII projectou aquela quinta, com a respectiva residência, jardins e os outros elementos decorativo, para a família dos Noronhas e Meneses. 
Obelisco trabalhado integrado no muro de vedação da Quinta da Prelada em 1936
 Guilherme Bomfim Barreiros in AHMP
Robert C. Smith, o maior especialista da obra do célebre arquitecto toscano, na obra "Nicolau Nasoni - Arquitecto do Porto", descreve do seguinte modo estes monumentos, classificados como imóveis de interesse público em 22 de Março de 1938: 
"Estes esbeltos obeliscos assentes em bolas, segundo um motivo maneirista dos séculos XVI e XVII, terminando em torres de dois 'corpos' ou andares, tirados do brasão dos Noronhas. Na base dos obeliscos figura o anel de aliança dos Meneses, no meio de um pesado bloco, cujo perfil sugere o da imafronte da Capela de Fafiães. Por cima da cornija aparecem volutas típicas de Nasoni, formando uma peanha de corte prismático, como transição às esbeltas superfícies diagonais dos obeliscos, sensivelmente ajustadas para capturar expressivos efeitos de luz e sombra". 
Obeliscos da Quinta da Prelada, integrados no muro de vedação da 
mesma e voltados para a Rua dos Castelos em 1936
Obeliscos de Nasoni na Foz. BPI
Os dois obeliscos projectados por Nicolau Nasoni, que marcam uma das entradas do jardim, foram trazidos para este local já no séc. XX.

Capela do Senhor Jesus da Boavista. (Porto)

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Esta capela não desapareceu, felizmente. O que desapareceu, ou melhor, se modificou e muito, foi o espaço que a envolvia, que foi absorvido pelo urbanismo crescente da cidade.
Segundo Germano Silva, a nosso ver, um dos mais conceituados eruditos sobre a cidade do Porto, há pouco mais de duzentos anos, antes de toda aquela zona se envolver em urbanismo, aquele local tinha mesmo o aspecto medonho de um barranco inóspito, de um perigoso precipício.
«Aquele morro altíssimo que fica entre a Rua das Antas e a igreja paroquial do Bonfim chamou-se, antigamente, o Fojo - palavra que significa "cova funda com uma abertu­ra disfarçada para apanhar animais".» 
No cimo do penhasco foram construídas, há muitos anos, por viandantes piedosos, umas "alminhas" que no século XVIII, mais concretamente em 1767, a generosi­dade do cónego da Sé do Porto José Maria de Sousa e as esmolas do povo devoto transformaram numa capela sob a invoca­ção do Senhor Jesus do Fojo que, anos mais tarde, passaria a chamar-se Senhor Jesus da Boavista.
O nome de Senhor Jesus da Boavista, assim como o topónimo Montebelo (actual Avenida de Fernão de Magalhães) têm a ver com o ambiente rural que naqueles recua­dos tempos envolvia o Fojo. 
Descrições da zona feitas ainda nos mea­dos do século XIX fazem referências a "am­plas zonas cobertas de férteis campos" e de um "panorama verdadeiramente paradisíaco" que, por esses tempos, era possível des­frutar do pequeno adro que havia em fren­te da capela, "todo circundado de arvoredo, o que o toma (ao adro) muito agradável para quem ali quiser pousar". 
Capela do Senhor da Boa-Vista - BPI - Alberto Ferreira N.º 159
Este panorama já não é possível contemplar, devido ao denso urbanismo envolvente. 
Durante o Cerco, motivado pela invasões Francesas (1832/1833) foi construí­da uma linha de defesa do Porto que, nesta zona da cidade, passava junto da capela do Se­nhor Jesus da Boavista. Por causa disso, o pe­queno templo foi muito danificado pelos obuses que a atingiram durante os renhidos combates que se travaram no alto do penhas­co do Fojo. O sítio era privilegiado porque dele era possível atingir a sempre muito mo­vimentada estrada de Valongo. A ampliação da capela feita em 1864 teve, também, entre outros, o objectivo de reparar as mazelas cau­sadas pela guerra civil que opôs as tropas de D. Miguel ao exército de D. Pedro IV. 
Assim, a capela, depois de ter sido reconstruída e obviamente ampliada em 1864, ainda lá se encontra e nela se celebra a festividade da Senhora do Porto cuja imagem se venera em altar próprio no inte­rior do pequeno templo. 

Bibliografia:
- Germano Silva in JORNAL DE NOTÍCIAS de 21-09-2014
- Biblioteca Municipal do Porto

Tabacaria Africana. (Porto)

sábado, 31 de março de 2018

A Tabacaria Africana não desapareceu, continua localizada na esquina da Rua de Santo António / 31 de Janeiro e Praça da Batalha. É um conhecido estabelecimento comercial que pertenceu a António de Almeida Campos até 1902 e foi posteriormente trespassado a Alberto Vieira da Cruz. 
Em tempos, além de tabaco e todos os itens que eram comuns estarem à venda numa tabacaria, a Tabacaria Africana também editava postais ilustrados, com clichés dos mais ilustres fotógrafos portuenses.
Chegou a possuir uma belíssima frontaria metálica, que formava um bucólico conjunto com a antiga Ourivesaria Reis Filhos, (mesmo em frente) e cuja fachada ainda se mantém e o cunhal da Livraria Latina, na esquina do lado da igreja de Santo Ildefonso. 
O edifício seria alvo de uma colossal obra de ampliação por volta de 1952, que removeu do mesmo a imponente frontaria.
Tabacaria Africana BPI - A magnífica frontaria metálica
Tabacaria Africana - A frontaria "recente" - Cliché de autor desconhecido

A Casa Grande de Romarigães. (Romarigães, Paredes de Coura)

quarta-feira, 14 de março de 2018

Quando falamos sobre "A Casa Grande de Romarigães" é impossível não nos saltar à ideia o escritor Aquilino Ribeiro (1885-1965) e a obra que o mesmo escreveu, com esse título.
Aquilino Ribeiro, esse escritor beirão, está de facto intimamente ligado à vida cultural da freguesia de Romarigães, concelho de Paredes de Coura, graças ao seu romance datado de 1957. 
Na verdade, a casa retratada no livro foi morada do ex-Presidente Bernardino Machado e do próprio Aquilino, que se casou com uma filha daquele presidente.
A "Casa Grande de Romarigães" não é um mito nem foi pura ficção do escritor. 
A casa ainda existe actualmente, em Romarigães, no sudoeste de Paredes de Coura, embora ao longo das décadas tenha sido muito alvo de descuido.
A Casa Grande de Romarigães in Arquivo Histórico
Aquilino Ribeiro Machado e Aquilino Ribeiro - Casa Grande de Romarigães in CCB
A Casa Grande de Romarigães - Livro - Circulo de Leitores
A construção desta casa deverá ter-se iniciado na segunda década do século XVII, época em que se instituiu o vínculo de Nossa Senhora do Amparo. Depois de algumas vicissitudes, a quinta foi adquirida em processo judicial pelo Par do Reino, Conselheiro Miguel de Antas, à família Meneses de Montenegro. A propriedade só viria a conhecer uma intervenção de restauro no século XX, quando, depois de ter passado pela posse do genro de Bernardino Machado (Presidente da primeira Republica), foi herdada pela mulher de Aquilino Ribeiro (CUNHA, 1909). É o próprio Aquilino que nos relata, no prefácio que escreve ao seu romance, como a casa estava em mau estado e como, no decorrer das obras, encontrou uma série de documentação que o levariam a escrever a "Casa Grande de Romarigães: "Quando se procedeu ao restauro da Casa Grande, que foi solar dos Meneses e Montenegros, houve que demolir paredes de côvado e meio de bitola em que há um século lavrava a ruína, ocasionando-lhes fendas por onde entravam os andorinhões de asas abertas e desníveis com tal bojo que a derrocada parecia por horas. Num armário, não maior que o nicho dum santo, embutido na ombreira da janela, que a portada, em geral aberta, dissimulava atrás de si, encontrou-se uma volumosa rima de papéis velhos"
O conjunto formado pela casa, anexos de função rural e capela do Amparo. Casa nobre, oitocentista, antecedida por um grande portal armoreado. A capela do Amparo apresenta a fachada decorada com nichos, imagens, carrancas, volutas, frontões e um óculo, tudo lavrado em pedra da região. A fachada é rematada por um campanário.
"A Casa Grande de Romarigães", está classificada como Imóvel de Interesse Público, desde o ano de 1986.
A Casa Grande de Romarigães - Fachada voltada à rua. Cliché in patrimoniocultural.gov.pt

Bibliografia:
"Património Arquitectónico e Arqueológico Classificado" - IPPAR, 1993
patrimoniocultural.gov.pt

O Palacete Nº 75 da Praça da República. (Porto)

terça-feira, 6 de março de 2018

Aspecto geral da casa brasonada, onde funcionou o Instituto Francês, situada na praça da República, 75 
Construção do século XIX. Cliché de Teófilo Rego
Este formidável edifício, cujas actuais ruínas ainda se erguem no cruzamento da rua de Alvares Cabral, esquina com a Praça da República, teve a sua origem com o fim da formidável Quinta de Santo Ovídio, já por nós aqui abordada em publicação específica, propriedade dos Condes de Resende e pelos mesmos alienada para urbanização em finais de 1800.
Nos últimos anos da sua imponente existência, este edifício albergou o Instituto Francês.
Um incêndio de grandes proporções destruiu em Abril de 2008 as antigas instalações do Instituto Francês do Porto, na Praça da República. O edifício de quatro andares, desocupado desde 2004, estava a ser remodelado para albergar uma clínica privada.
Aquela que é tida como uma das casas mais emblemáticas da Praça da República acolheu durante 30 anos o Instituto Francês. 
Para Bernard Despomadères, responsável cultural de Consulado Francês no Porto, a destruição da casa representa "a segunda morte do instituto, talvez a definitiva". A casa, com os interiores todos em madeira de riga, "era um testemunho do que melhor se fazia no Porto a nível arquitectónico no início do século XX".

1928 - Ano do início da circulação pela direita em Portugal.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Em Portugal e nas suas colónias, até 1928, a circulação automóvel era feita pela esquerda.
Em 1928, um ano após ter sido criada a Junta Autónoma de Estradas, foi legislado o primeiro código da estrada português e, pelo decreto n.º 18.406, de 31 de Maio de 1928, seria estabelecida a circulação pela direita nas estradas.
 1928 - Ano do início da circulação pela direita
Sinais colocados pelo Diário de Notícias e pela Vacuum Oil Company
 Acidente de automóvel no Largo do Chiado, Lisboa, em 1928. Estúdio Mário Novais
A partir das 5 horas da manhã de 01 de Junho de 1928 em Lisboa, e à meia noite no resto de Portugal continental, para os cerca de 31 mil condutores com carta de condução e cerca de 28.000 automóveis então existentes, passou a ser obrigatória a circulação rodoviária pelo lado direito das estradas. O mesmo aconteceu na Guiné, em Angola e Timor e, presume-se, na Fortaleza de São João Baptista de Ajudá. No entanto, em Macau, Goa e Moçambique, tendo em atenção as suas situações específicas, manteve-se a condução pelo lado esquerdo das estradas.
Em Timor, a condução passou a ser feita pela direita em Junho de 1928. Mais tarde, depois da Abrilada de 1974, mais exactamente em 1975, na sequência da anexação de Timor pela Indonésia, o sentido da condução foi novamente alterado para o lado esquerdo.

Fontes:
- Automóvel Clube de Portugal
- AHML 

Confeitaria Oliveira. (Porto)

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Confeitaria Oliveira. Cliché: Phot.ª Guedes
Aspecto da antiga e já desaparecida «Confeitaria Oliveira» na Praça de Carlos Alberto. Vemos igualmente, a então também existente «Confeitaria Saldanha», assim como a «Hospedaria Antiga Casa Torrado» e o «Hotel da Boa Esperança». 
Imagens:
- Phot.ª Guedes in Arquivo Histórico Municipal do Porto

A "Passarola" de Bartolomeu de Gusmão.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Bartolomeu Lourenço de Gusmão, SJ (Santos, Dezembro de 1685 - Toledo, 18 de Novembro de 1724), cognominado o padre voador, foi um sacerdote secular, cientista e inventor luso-brasileiro nascido na capitania de São Vicente, em Santos, na colónia portuguesa do Brasil, famoso por ter inventado o primeiro aeróstato operacional, a que chamou de "passarola".
 Bartolomeu Lourenço de Gusmão, por Benedito Calixto, em quadro de 1902
Sem nos alongarmos no percurso de sua vida ao longo de anos, para não nos afastarmos do tópico desta publicação, podemos no entanto acrescentar que em 1708, já ordenado padre, Bartolomeu embarcou mais uma vez para Portugal. Logo após sua chegada, em 1º de Dezembro matriculou-se na Faculdade de Cânones da Universidade de Coimbra. Passados alguns meses, contudo, abandonou a faculdade para instalar-se em Lisboa, aonde foi recebido com sumo agrado pelo Rei Dom João V e pela Rainha Maria Ana de Áustria, apresentado que fora aos soberanos por um dos maiores fidalgos da Corte, D. Rodrigo Anes de Sá Almeida e Menezes. Esse homem era ninguém menos que o 3º Marquês de Fontes, o mesmo que o havia recolhido à sua casa aquando da sua primeira estada em Portugal.
Na capital portuguesa o padre Bartolomeu Lourenço pediu patente ou "petição de privilégio" para um “instrumento para se andar pelo ar” – que se revelaria ser, mais tarde, o que hoje se conhece por aeróstato ou balão –, a qual foi concedida no dia 19 de Abril de 1709. O facto causou celeuma na cidade e a notícia rapidamente se espalhou para alguns reinos europeus. O invento, divulgado por meia Europa em estampas fantasiosas que, em geral, o retratavam como uma barca com formato de pássaro, ficou conhecido como “Passarola”.
 Ilustração imaginária da Passarola, em 1709
As primeiras ilustrações da Passarola haviam sido na verdade elaboradas pelo filho primogénito do 3º Marquês de Fontes, D. Joaquim Francisco de Sá Almeida e Meneses, com a conivência de Bartolomeu. O 8º Conde de Penaguião e futuro 2º Marquês de Abrantes contava 14 anos em 1709 e era, então, aluno de matemática do padre, sendo a única pessoa à qual ele permitia livre acesso ao recinto em que o engenho voador era guardado. Como o rapaz vivesse assediado por curiosos, que constantemente lhe faziam indagações acerca da invenção, resolveu ele, para deixar de ser importunado, elaborar o exótico desenho da Passarola, em que tudo era propositadamente falseado. E para preservar o verdadeiro princípio da invenção – o Princípio de Arquimedes –, atribuiu a ascensão da engenhoca ao magnetismo, que era então a resposta para quase todos os mistérios científicos. Esperava dessa maneira melhor proteger o segredo confiado à sua guarda e ludibriar os bisbilhoteiros. Comunicou o plano a Bartolomeu, que o aprovou, e fingiu deixar o desenho escapar por descuido. A Passarola, inspirada ao que parece na fauna fabulosa de algumas lendas do Brasil, acabou sendo rapidamente copiada, logo se espalhando pela Europa em várias versões, para grande riso dos dois farsantes.
Passarola Voadora do Padre Bartolomeu de Gusmão
Toda essa trama seria descoberta anos depois por um poeta italiano, Pier Jacopo Martello (1625 – 1727), e revelada por ele na edição de 1723 do livro Versi e prose, em que fazia um longo e meticuloso histórico das tentativas do homem para voar, das mais antigas às mais recentes daquele tempo.
Em Agosto, finalmente, Bartolomeu Lourenço fez perante a corte portuguesa cinco experiências com balões de pequenas dimensões construídos por ele: na primeira, realizada no dia 3 na Casa do Forte (Palácio Real), o protótipo utilizado pegou fogo antes de subir; na segunda, feita no dia 5 noutra dependência do palácio, a Casa Real, o aeróstato, provido no fundo duma tigela com álcool em combustão, se elevou a 4 metros, quando começou a arder ainda no ar, sendo imediatamente derrubado por dois serviçais armados de paus, receosos dum incêndio aos cortinados do recinto; na terceira, feita no dia 6 novamente na Casa do Forte, o balão, contendo no interior uma vela acesa, logrou fazer um voo curto, mas se queimou no pouso; na quarta, feita no dia 7 no Terreiro do Paço (hoje Praça do Comércio), o balonete elevou-se a grande altura, pousando lentamente minutos depois; na quinta, feita no dia 8 na Sala das Audiências, no interior do Palácio Real, o globo subiu até o tecto do aposento, aí se demorando, quando enfim desceu com suavidade.
Em 3 de Outubro de 1709, na ponte da Casa da Índia, o padre fez nova demonstração do invento. O aparelho utilizado era maior que os anteriores, mas ainda incapaz de carregar um homem. A experiência teve êxito absoluto: o aeróstato subiu alto, flutuou por um tempo não medido e pousou sem estrépito.

Bibliografia: 
- ARRUDÃO, Matias. Bartolomeu Lourenço de Gusmão. São Paulo: Fundação Santos Dumont, 1959. 
- ASSIS, José Eugênio de Paula. Bartolomeu Lourenço de Gusmão. São Paulo: Coleção Saraiva, 1969. 
- AZEVEDO, João Lúcio de. Novas Epanáforas. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1932. 
- CARUSO, Francisco; MARQUES, Adílio Jorge. Bartolomeu de Gusmão: Raízes de um espírito inovador incompreendido.  In: Bartolomeu Lourenço de Gusmão: o padre inventor. Volume I - Colecção Brasiliana da Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra. Rio de Janeiro: Andrea Jakobsson Estúdio, EDUERJ, 2011, v. I, p. 33-55. 
- CARVALHO, Rômulo de. História dos balões. Lisboa: Relógio d’Água, 1991.

Palacete Leite Pereira. (Porto) Será "salvo" pelo turismo?!?

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Quem nasceu e cresceu, ou frequentou com assiduidade a cidade do Porto nas últimas décadas, não será estranho ao fenómeno do turismo explosivo, que assolou a mesma a partir de 2005/2008, pouco mais ou menos...
Um centro histórico, no qual se viam os portuenses no seu trabalho diário e que se tornava um "deserto" a partir do fim do expediente, é hoje um "enxame" de turistas estrangeiros. Alemães, Ingleses, Franceses, Chineses, Brasileiros, etc. etc. entopem a Baixa de noite e de dia.
Já correm vozes, que muito brevemente a cidade do Porto terá de tudo, menos portuenses...
Tudo tem o seu lado bom e o seu lado mau. Aqui não será excepção. O lado bom, é obviamente o lado referente à economia. Os cafés e restaurantes da Baixa do Porto, que são cada vez mais, passaram a ostentar preços para bolsos de Alemães e Ingleses, que ganham em média 5 ou 6 vezes mais que o trabalhador português. As casas antigas, ou "velhas" como preferem alguns e nas quais já ninguém podia morar, por falta de condições, estão a ser reconstruídas (umas com mais rigor histórico que outras) e transformadas em "habitação de luxo" vendidas por preços exorbitantes. Os antigos Palacetes de famílias nobres, estão a dar lugar a Hoteis de luxo, um atrás do outro...
O lado mau será o crescente e já evidente despovoamento, por parte dos seus habitantes autóctones, que não possuem possibilidades financeiras, para fazer frente aos seus "concorrentes" estrangeiros.
A cidade velha perde assim o resto dos seus habitantes e com eles as suas características próprias...
Mas, após esta ligeira reflexão, vamos ao verdadeiro item desta publicação: O Palacete Leite Pereira.
Localiza-se na antiga Rua do Olival, sitio onde em 1485, apareceu a peste e para evitar a propagação dessa terrível epidemia, o arruamento foi entaipado. Isso fez com que em 1486 se alterasse o nome para a actualmente conhecida Rua das Taipas.
 Palacete Leite Pereira na Rua das Taipas in AMP
Os Leite Pereira, Viscondes de Alcobaça, eram a família nobre, proprietária desta formidável casa e cujo brasão (ou pedra de armas) ainda se pode observar na fachada.
 Palacete Leite Pereira
 A pedra de armas na casa nº 74 da Rua das Taipas
Tendo deixado de ser residência nobre em data, que neste momento não possuímos dados para referir, o certo é que este espaço serviu posteriormente de sede ao Clube Inglês. Funcionou ainda como uma drogaria durante largos anos.
O Palacete nestes últimos anos... ou décadas
Nos últimos anos o Palacete tem estado neste crescente estado de degradação... será também "salvo" pelo turismo? Se for o caso esperemos que o "salvamento", seja feito de forma mais digna, que outros que temos observado. Edifícios magníficos, onde são derrubadas todas as paredes antigas de pedra (e substituídas por outras de betão) ficando do edifício original, apenas a fachada frontal. 
Exemplos? Passeiem pelo Largo Moinho de Vento, ou pela Rua de Sá Noronha...


Imagens: 
- Arquivo Histórico Municipal do Porto 
- Google Maps

A Mercearia Camanho. (Porto)

quinta-feira, 15 de junho de 2017

  «Mercearia  Camanho» in AMP
A «Mercearia Camanho», de Manuel Camanho Cernade, situava-se no ângulo da Rua da Boavista, n.º 395, com a Rua de Cedofeita, n.º 694-696, num edifício secular e ainda existente, ocupando então o seu piso térreo. Como muitas outras mercearias da época, esta casa abastecia as despensas dos lares de seus clientes habituais, vendendo todo o artigo de mercearia, bem como tabaco. Funcionava também como depósito de vinhos da C.ª Vinícola do Norte.
  «Mercearia  Camanho» in AMP
No sítio exacto, então ocupado pela Mercearia Camanho, encontra hoje a Confeitaria Universal, no mesmo edifício, embora com evidentes modificações na fachada do mesmo. Clique AQUI, para ver o local actualmente.

Azulejos da Igreja do Carmo. (Porto)

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Já aqui abordamos anteriormente e por diferentes motivos, as igrejas do Carmo e dos Carmelitas em várias das nossas publicações. Desta vez abordaremos novamente a igreja do Carmo, fazendo referencia, a algo que a mesma ganhou.
Como sabemos, a Igreja do Carmo ou Igreja da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, de estilo barroco/rococó, foi construída na segunda metade do século XVIII, entre 1756 e 1768, pela Ordem Terceira do Carmo, sendo o projecto do arquitecto José Figueiredo Seixas. 
Igrejas do Carmo (direita da imagem) e dos Carmelitas, entre finais de 1800 e início de 1900
In Arquivo Histórico Municipal do Porto
Igrejas do Carmo e Carmelitas
Como é conhecido, a fachada lateral da Igreja do Carmo está revestida por um grandioso painel de azulejos, representando cenas alusivas à fundação da Ordem Carmelita e ao Monte Carmelo. 
A composição foi desenhada por Silvestre Silvestri, pintada por Carlos Branco e executada nas fábricas do Senhor do Além e da Torrinha, em Vila Nova de Gaia, e datados de 1912.
Igrejas do Carmo (ainda sem azulejos) e das Carmelitas, por volta de 1890 (a nosso ver talvez antes, pois, parece ainda não existir a fonte central, conhecida por "Fonte dos Leões" que foi mandada fazer pela Companhia das Águas do Porto em 1882, entrando em funcionamento quatro anos mais tarde). Imagem in AMP

Casa n.º 152 da Rua de Miragaia. (Porto)

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Esta publicação, quase pode ser considerada uma "brincadeirinha" tendo em conta a sua simplicidade. No entanto mostra-nos uma realidade presente: 
A degradação do património, caso não haja intervenção humana no intuito de o preservar.
Como exemplo. vejamos a imagem de baixo, que não tem mais que algumas décadas. 
Trata-se de um pormenor da fachada da casa n.º 152 da Rua de Miragaia, com autoria de Guilherme Bomfim Barreiros.
 Casa n.º 152 da Rua de Miragaia. Bomfim Barreiros
Quer ver este exacto local na actualidade?
Clique aqui: 
Rua de Miragaia n.º 152

Crise alimentar de 1917.

Durante a Primeira Grande Guerra Mundial (1914-1918) agravaram-se as debilidades que Portugal apresentava no que respeitava à produção de bens alimentares básicos, nomeadamente os cereais. 
Os preços dispararam, começaram a aparecer fenómenos de açambarcamento e de contrabando. 
Após o inverno de 1916-1917, apareceu a fome e todos os problemas que ela arrasta. 
Nesse inverno, os Aliados tinham reforçado o bloqueio à Alemanha, tendo esta reagido violentamente, com a guerra submarina no Atlântico, procurando cortar o abastecimento às nações aliadas. 
Porto. Crise alimentar. Pessoas à porta de uma casa. 1916-17. Phot.ª Guedes
Crise alimentar de 1916-17 
Interior do posto de venda da padaria de Montebello (actual Av. Fernão de Magalhães)
Crise alimentar de 1916-17 
Posto de venda da Junta de Paróquia de Santo Ildefonso
Crise alimentar de 1916-17
 Posto de venda da Junta de Paróquia do Bonfim
Em todo o lado faltavam todo o tipo de matérias-primas e alimentos. Todos os países, beligerantes ou não, mergulharam no caos. Uns mais que outros, mas a maioria, como Portugal, sofreram uma grave crise de subsistências, inflação e fome, acompanhadas por uma crescente agitação operária e popular, greves, motins de rua, insurreições militares e revoluções.
Entre 19 e 21 de Maio de 1917, deu-se a "Revolução da Batata" que mais não foi que, assaltos a mercearias e armazéns em Lisboa e no Porto devido à falta de alimentos, provocada pelo racionamento. O governo manda reprimir severamente todos os tumultos e declara o estado de sítio em Lisboa e concelhos limítrofes.

Imagem:
- Phot.ª Guedes
- Arquivo Histórico Municipal do Porto

Associação Industrial Portuense. (Porto)

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A AEP (Associação Empresarial de Portugal), é uma associação multisectorial, de âmbito nacional, sedeada no Porto e fundada em 03 de Maio de 1849 por José Vitorino Damásio e outros homens de negócio da região, com a designação de Associação Industrial Portuense.
Pormenor do edifício da Associação Industrial Portuense, na rua de Entreparedes, nº 3

A Associação Industrial Portuense, (actual AEP)  foi fundada, com o objetivo de "desenvolver e aperfeiçoar a industria - instruir e educar as classes laboriosas - introduzir entre nós auxílio mútuo e o melhoramento da condição dos operários - e todas as vantagens legaes que a indústria possa obter d'uma tal reunião".
Em 1854, surge a Caixa de Socorros Mútuos mais tarde designada Caixa de Crédito Portuense. No campo da actividade financeira, a AEP apoiou ainda a criação do Banco Aliança e de um banco hipotecário. Ainda na sua primeira fase, a AEP teve também um capítulo histórico no domínio da organização de feiras industriais. Em 1856 é inaugurada, na sede da AEP, a primeira exposição permanente. Estes primeiros certames funcionariam como um excelente ensaio para a grande exposição de 1861, inaugurada no Palácio da Bolsa, na presença de D. Pedro V.
Fachada principal da antiga Associação Industrial Portuense, na rua de Entreparedes, n.º 3
Imagens:
- Phot.ª Guedes
Bibliografia:
- AEP
- BMP

Primeira Ascenção do «Balão Portuguez». (03-04-1904)

quinta-feira, 10 de março de 2016

António Bernardes, conhecido pela alcunha de “Ferramenta”, nasceu no Candal, em Vila Nova de Gaia.
António Bernardes, aspirava construir um balão e ascender nele, sonho que cedo realizaria. 
Bernardes construiu um balão que denominou de “O Portuguez”, com uma capacidade para 1.200 metros cúbicos, que poderia elevar-se com o peso bruto de aproximadamente 800 Quilos, marcando a sua primeira ascensão para o dia 03 de Abril de 1904 nos jardins do Palácio de Cristal. 
O Aeronauta "Ferramenta"
No dia em questão, o balão foi conduzido até ao Palácio, em dois carros de bois, com a banda filarmónica à sua frente. No entanto quando se ensaiava a ascensão, o governador civil proibiu a subida. Bernardes, o aeronauta "Ferramenta”, nada contente, cortou as cordas e o balão depois de tocar nas copas das árvores subiu no ar, perante a admiração e os aplausos do público. Flutuaria por cerca de quatro horas, indo pousar num campo, em S. Cosme, no concelho de Gondomar.

Imagem:
- BPI, Editor - Alberto Ferreira

A Revolta de 1927. (Porto)

A revolta de 1927, no Porto iniciou-se pelas 4:30 da madrugada do dia 03 de Fevereiro, com a saída do Regimento de Caçadores 9, a que se juntou a maior parte do Regimento de Cavalaria 6, vindo de Penafiel, vários núcleos de outros regimentos da cidade e uma companhia da Guarda Nacional Republicana aquartelada na Bela Vista, Porto.
O comando das forças fora confiado ao general Adalberto Gastão de Sousa Dias, tendo como chefe do estado-maior o coronel Fernando Freiria, apoiado por um comité revolucionário constituído por Jaime Cortesão, Raul Proença, Jaime Alberto de Castro Morais, João Maria Ferreira Sarmento Pimentel e João Pereira de Carvalho. Entre os apoiantes incluía-se também José Domingues dos Santos, o líder da esquerda democrática que em 1918 dirigira a conspiração civil contra a Monarquia do Norte.
Jaime Cortesão foi de imediato nomeado governador civil do Porto e Raul Proença, além de conspirador, foi organizador e combatente de armas na mão, servindo de ligação aos co-conspiradores de Lisboa.
Durante a madrugada e manhã do dia 03 de Fevereiro, as forças dos revoltosos dirigiram-se para a zona da Praça da Batalha, onde estavam as sedes do quartel-general da Região Militar e do Governo Civil e a mais importante estação do telégrafo. Nessa primeira acção foram aprisionados o general José Ernesto de Sampaio e o coronel João de Morais Zamith, respectivamente primeiro e segundo comandantes da Região Militar, o tenente-coronel Luís Monteiro Nunes da Ponte, governador civil do Porto, e o seu substituto, major Sequeira Tavares, o comandante da força que fazia a guarda ao quartel-general e o presidente da Comissão de Censura à Imprensa.
Regimento de Infantaria 18
As forças governamentais, depois de algumas horas de desorganização, passaram a ser constituídas por uma parte reduzida do Regimento de Infantaria 18, que tinha como comandante o coronel Raul Peres, o Regimento de Cavalaria 9 e o Regimento de Artilharia 5, este aquartelado na Serra do Pilar. 
Regimento de Artilharia 5 - Serra do Pilar
Serra do Pilar, vista do Estaleiro Rei Ramiro c. 1880
Na tarde do dia 03 de Fevereiro, sob o comando do coronel João Carlos Craveiro Lopes, chefe do estado-maior da Região Militar e governador militar da cidade, as forças pró-governamentais concentraram-se no quartel da Serra do Pilar e abriram fogo de artilharia contra os revoltosos.
Na manhã desse mesmo dia 03 de Fevereiro, numa manobra arriscada, mas indicativa da certeza de que estava assegurada a fidelidade ao Governo das tropas de Lisboa, o Ministro da Guerra, coronel Abílio Augusto Valdez de Passos e Sousa, saiu de Lisboa num comboio com destino a Vila Nova de Gaia, onde chegou ao anoitecer. Assumiu então o controlo operacional das forças pró-governamentais ali instaladas sob o comando do coronel João Carlos Craveiro Lopes, mantendo-se na frente de combate até à subjugação dos revoltosos.
Logo na manhã de 04 de Fevereiro, juntaram-se aos revoltosos os militares do Regimento de Artilharia de Amarante, cujas peças de artilharia obrigaram as forças governamentais a recuar para o Monte da Virgem, de onde o bombardeamento sobre os revoltosos prosseguiu. Nessa mesma manhã, as forças revoltosas concentram-se na zona citadina em torno da Praça da Batalha, em redor da qual se montaram trincheiras, metralhadoras e peças de artilharia. Na confluência da Praça da Batalha com a Rua de Entreparedes foram instaladas duas peças de artilharia.
Na manhã do dia 04 de Fevereiro, o Regimento de Cavalaria 8, vindo de Aveiro, fiel ao Governo, conseguiu penetrar o fogo dos revolucionários e atravessar a Ponte de D. Luís, mas foi detido pelas barricadas que defendiam a Praça da Batalha. A mesma sorte tiveram as tropas fiéis ao Governo aquarteladas na própria cidade do Porto, que foram rechaçadas pelo intenso fogo das trincheiras dos revolucionários quando tentaram avançar sobre as posições dos sublevados.
Entretanto começaram a chegar mensagens de adesão de diversas guarnições, mas não das esperadas guarnições de Lisboa. Aderem tropas pertencentes a unidades aquarteladas em Viana do Castelo, Figueira da Foz e Faro, estas últimas apoiadas por forças de Olhão, Tavira e Vila Real de Santo António, mas por falta de apoio, particularmente de Lisboa, os recontros nestas cidades são esporádicos e a rebelião foi, na maior parte dos casos, subjugada em escassas horas.
Na tarde de 04 de Fevereiro, quando as adesões militares não corresponderam ao esperado, Raul Proença, profundamente envolvido na revolta, convoca os civis para combaterem ao lado dos revoltosos, mas com pouco sucesso. O movimento haveria de se manter até ao fim essencialmente militar, sendo poucas as adesões civis. Mesmo as restantes forças da Guarda Nacional Republicana estacionadas no Porto e seus arredores fizeram saber, através do seu comandante, major Alves Viana, que se manteriam neutrais, garantindo o policiamento da cidade "em defesa das vidas e dos haveres dos cidadãos", mas não interferindo na contenda entre militares.
Ao longo do dia foram sendo consolidadas as defesas do perímetro em torno da Praça da Batalha, com a colocação ao cimo da Rua de 31 de Janeiro, na bifurcação com a Rua de Santa Catarina, de uma metralhadora para impedir a progressão naquelas ruas. Tal foi a mortandade causada pela metralhadora ali colocada que a posição foi cognominada de a trincheira da morte.
A "Trincheira da Morte" no topo da Rua 31 de Janeiro, antiga Rua de Santo António
Duas variantes de um mesmo cliché
Para completar o perímetro defensivo, foi colocada outra metralhadora numa trincheira construída na confluência das ruas de Cima de Vila e da Madeira, montada uma peça de artilharia à esquina do edifício do Hospital da Ordem do Terço, voltada para a Rua do Cativo, e colocada uma metralhadora no desaparecido Largo do Corpo da Guarda, ao cimo da rua que ainda mantém esta designação. Para além disso, levantou-se o pavimento e montaram-se duas peças de artilharia na Rua de Alexandre Herculano, na junção com a Praça da Batalha e a Rua de Entreparedes.
A "Trincheira da Morte" na Rua de Entreparedes
Para além de soldados do Regimento de Infantaria 6, de Penafiel, e da GNR da Bela Vista estacionados ao longo da Rua Chã, foram colocadas "vedetas", patrulhas constituídas por soldados e civis, ao longo de todo o perímetro.
Na tarde deste dia, o comandante Jaime de Morais, chefe militar do Comité Revolucionário do Norte, enviou ao general Óscar Carmona, Presidente da República, um telegrama contendo um ultimato em que se afirmava: Os oficiais revoltosos decidiram reintegrar o País dentro do regime democrático constitucional, com a formação de um Governo Nacional que afirmasse a supremacia do poder civil, guardado e defendido pela força armada, que assim teria restituído as funções de que a desviaram.
Nesse mesmo dia 04 de Fevereiro, e nos dias imediatos, juntaram-se aos revoltosos do Porto forças provenientes de Penafiel, Póvoa do Varzim, Famalicão, Guimarães, Valença, Vila Real, Peso da Régua e Lamego. Vinda de Amarante chegou mais artilharia, a qual foi estacionada nas imediações de Monte Pedral. A artilharia da Figueira da Foz foi detida na Pampilhosa quando se dirigia para o Porto.
Ao contrário do previsto pelos revoltosos, até ao final do dia 04 de Fevereiro não se registaram quaisquer adesões em Lisboa, centro vital do poder político-militar, o que permitiu ao Ministro da Guerra, coronel Passos e Sousa, concentrar todas as forças no combate aos entrincheirados no Porto. Na tarde deste dia, a posição dos revoltosos era crítica, já que os pró-governamentais dominavam Lisboa e todo o sul de Portugal e controlavam a margem sul do Douro, tornando improvável o reforço das tropas revoltosas.
Entretanto, na manhã do dia 05 de Fevereiro o vapor Infante de Sagres chegava a Leixões, com tropas governamentais, comandadas pelo coronel Augusto Manuel Farinha Beirão, enquanto mais forças governamentais atravessavam o Douro em Valbom e se encaminhavam para o centro da cidade.
Nessa mesma manhã desenvolve-se uma tentativa de conciliação, que leva o comandante Jaime de Morais e o major Severino a visitar o quartel-general do Ministro da Guerra, instalado num prédio da Avenida das Devezas, em Gaia, numa tentativa de negociar a rendição em troca da liberdade para os revoltosos. Os parlamentários dos revolucionários foram obrigados a atravessar a cidade vendados, mas o resultado foi inconclusivo já que o Ministro recusou uma rendição que não fosse incondicional: ou a rendição total ou o bombardeamento da cidade. Falhada a conciliação, a partir das 16 horas do dia 05 de Fevereiro travou-se um grande duelo de artilharia entre as duas margens do rio Douro.
Durante a tarde do dia 05 de Fevereiro começou a montar-se o cerco aos revoltosos, envolvendo o Porto num anel de fogo e metralha: pelo norte, as tropas desembarcadas em Leixões pelo Infante de Sagres; por leste, tropas fiéis ao Governo vindas de Bragança e da Régua, chefiadas por António Lopes Mateus; e a sul, em Vila Nova de Gaia, concentram-se cerca de 4 000 homens vindos de várias guarnições, munidos de farta artilharia. Perante o apertar do cerco, na noite de 05 de Fevereiro, os revoltosos propõem um armistício, mas Passos e Sousa responde, na manhã do dia 06, com o reiterar da exigência de uma rendição incondicional e a ameaça de bombardeamentos ainda mais intenso e pesado, incluindo o recurso a obuses.
Raul Proença regressou a Lisboa na noite de 06 de Fevereiro para pedir auxílio e para tentar desencadear a revolta naquela cidade, já que o movimento, sem os apoios esperados, começava a enfrentar sérias dificuldades no Porto.
Naquelas circunstâncias só restava negociar a rendição, já que um ataque à baioneta contra as baterias governamentais da Serra do Pilar (Gaia) que invertesse a situação era virtualmente impossível e muito provavelmente redundaria num banho de sangue, sendo certo o bombardeamento da cidade. Com os olhos postos em Lisboa, onde a muito custo e com uma lentidão exasperante o movimento parecia finalmente arrancar, os revoltosos resistem durante os dias 06 e 07 de Fevereiro, mas à medida que as horas passam e as munições se esgotam cresce o sentimento de derrota e sobem de tom as vozes que advogam a rendição.
Revolução no Porto. Junto à Sé, na entrada superior da Ponte Luís I
Finalmente, na tarde do dia 07 de Fevereiro, esgotadas as munições, o quartel-general dos revoltosos, instalado no Teatro de S. João, manda dispersar os civis ali aquartelados. À meia-noite o general Sousa Dias faz chegar ao Regimento de Artilharia 5, em Gaia, por intermédio do major Alves Viana, da GNR, um documento apenas por si subscrito, em que propõe a rendição, com salvaguarda da isenção de responsabilidades de sargentos, cabos e soldados. Passos e Sousa aceita apenas a isenção de cabos e soldados, declarando que os oficiais e sargentos envolvidos seriam punidos. Qualquer civil apanhado de armas na mão seria imediatamente fuzilado.
Sem mais opções, pelas 3:00 horas da madrugada do dia 08 de Fevereiro Sousa Dias aceita as condições propostas e ordena a rendição dos revoltosos. Pelas 8:30 horas, Passos e Sousa entra triunfalmente na cidade, pela Ponte Luís I. Estava terminada a revolta no Porto.
O sargento-ajudante Nogueira, da facção derrotada, entregando a sua espada frente ao Teatro S. João
Pouco depois o coronel João Carlos Craveiro Lopes envia ao general Óscar Carmona, Presidente da República, o seguinte telegrama: Felicito V. Ex.ª e o Governo da Nação. Tropas entraram Praça da Batalha, Porto, às 8 horas e meia, tomando conta da cidade onde a vida vai retomando a sua normalidade. Na tarde desse mesmo dia 08 de Fevereiro, o Ministro Passos e Sousa parte para Lisboa, cidade onde a revolta estava agora acesa.
Durante os 5 dias que durou a revolta no Porto perderam a vida mais de 100 pessoas, entre militares e civis, entre os quais o jornalista António Maria Lopes Teixeira, director do Diário do Porto. Foram mais de 500 os feridos, alguns dos quais viriam a sucumbir nos dias imediatos. Os estragos causados pelos bombardeamentos e tiroteios também foram grandes, com muitas casas devastadas e muitos edifícios públicos grandemente danificados.

Fontes:
- Silva, Germano. O início do Reviralho, in Jornal de Notícias
- http://www.iscsp.utl.pt/
- Roberto de Sampaio e Melo, O cerco do Porto : 3 a 7 de Fevereiro de 1927 : (memórias de um sitiado) : 5 dias e 5 noites sob a metralha. Porto : J. Ferreira dos Santos, 1927.
- Wikipédia
- Arquivo Municipal do Porto