No coração purpúreo da Invicta Cidade, ali onde a Rua de Sá da Bandeira cruza a vetusta artéria Formosa, ergueu-se, durante largos decénios, um dos mais conspícuos baluartes do comércio tradicional portuense: a Casa Forte. Ocupando uma posição angular de indiscutível centralidade, o operoso estabelecimento estendia a sua influência pela antiga Travessa da Rua Formosa, outrora denominada Viela da Neta, artéria pedonal que servia de artelho conector no tecido urbano daquela centenária paragem.
Casa Forte vista da Rua de Sá da Bandeira e da antiga Travessa da Rua Formosa, que também se chamou Viela da Neta

A génese deste histórico quarteirão remonta à referida Viela da Neta, uma ruela tortuosa e exígua que originalmente estabelecia a ligação entre a Rua Formosa e a Rua do Bonjardim. No ano de 1875, mercê do plano de expansão e modernização da urbe, iniciou-se a abertura do troço setentrional da moderna Rua de Sá da Bandeira. Esta profunda reforma urbanística determinou o desvanecimento da velha viela; todavia, um remanescente do seu traçado logrou subsistir sob a designação de Travessa da Rua Formosa, sita precisamente em frente ao palacete do Conde do Bolhão.
Foi nesta envolvente de feição vincadamente mercantil que a Casa Forte se assumiu como o fulcro dinamizador do quarteirão. Fundada primitivamente na vizinha Rua de Santa Catarina, a emblemática firma transferiu a sua sede e principais armazéns para a esquina de Sá da Bandeira com a Rua Formosa na década de 1930, registando-se já uma intensa actividade comercial a partir de 1932. Sob o celebrizado lema «Forte nos sortidos, fraca nos preços», a Casa Forte celebrizou-se pela venda de lanifícios, tecidos, retrosaria de fina estirpe e, mais tarde, artigos de desporto e rádio. Não era apenas um entreposto mercantil, mas um verdadeiro pilar da sociabilidade e da identidade burguesa do Porto novecentista.
Travessa da Rua Formosa. Saída para a Rua Formosa
Todavia, o dealbar do novo milénio trouxe consigo o inexorável declínio das velhas instituições comerciais. No ano de 2004, a Casa Forte cerrou definitivamente as suas portas, votando todo o complexo edificado a um penoso e prolongado hiato de abandono. O quarteirão transformou-se, paulatinamente, numa ferida aberta no âmago da urbe; uma vasta escavação interior, que a vox populi ironicamente baptizou de «a cratera da Baixa», onde apenas as heróicas fachadas graníticas permaneciam erectas, escoradas por complexas estruturas metálicas, como testemunhas espectrais de uma opulência fenecida.
A regeneração deste espaço histórico concretizou-se recentemente sob a égide do Projecto Bonjardim, uma intervenção arquitectónica de fôlego que logrou conciliar a salvaguarda patrimonial com as exigências da modernidade. As veneráveis fachadas de granito originais da Casa Forte e dos edifícios adjacentes foram integralmente restauradas, preservando-se a traça oitocentista que confere ao arruamento a sua dignidade estética. No entanto, o desenho interior sofreu uma mutação conceptual: a antiga e acanhada Travessa da Rua Formosa foi sublimada, dando lugar a uma praça pública central com cerca de 2500 metros quadrados. Este novo claustro urbano promove uma permeabilidade pedonal inédita, revitalizando o quarteirão através de uma simbiose perfeita entre habitação contemporânea, hotelaria e dinamismo comercial.