quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A Aldeia da Foz-do-Dão.

«A Aldeia da Foz do Dão»
Clique nas imagens para as ampliarDuas vistas ligeiramente diferentes da Aldeia da Foz do Dão...
Um verdadeiro "paraíso perdido".

Muita gente terá conhecido – e dela se lembrará, por certo – uma pitoresca e bem antiga aldeia que ficava situada entre Penacova e Santa Comba Dão. Era na velha estrada, depois do Porto da Raiva, logo a seguir à característica ponte sobre o Mondego (que então se chamava Ponte Salazar), esta inaugurada em 1933, no tempo em que o Ministro da Obras Públicas era o Engº. Duarte Pacheco.
Situava-se a povoação a que me refiro no ângulo formado pela margem direita do Mondego e a esquerda do Dão, em cujo vértice confluíam os dois rios.
Por isso mesmo se chamava Foz-do-Dão.
Era uma aldeia típica das nossas pequenas terras da Beira, bonita de se ver, com todo o seu casario alegremente debruçado sobre os rios que tão generosamente constituíam, além da agricultura, importante modo de vida das suas gentes.
Além de ser margem daqueles dois rios, a Foz-do-Dão estabelecia também os limites dos concelhos de Santa Comba Dão, Penacova e Mortágua, dividia os distritos de Coimbra e Viseu e separava a Beira Litoral da Beira Alta.
Aldeia e ponte. Cliché de autor desconhecido
Ponte Salazar e a Aldeia da Foz-do-Dão
 BPI (digitalização)
Ponte Salazar e a Aldeia da Foz-do-Dão
Fotografia Beleza
Chamou-se em tempos Porto da Foz-do-Dão, quando o rio Mondego, então navegável dali até à foz, era relevante via de comunicação, nomeadamente no transporte de madeiras para jusante e de sal e outros produtos do litoral para o interior.
Quem dela se lembra, recordará certamente a excelente iguaria que era a lampreia do Carlos, ali pescada, o sável e os peixes do rio, óptimos petiscos que lá eram apreciados por quem a visitava ou por lá passava.
Esta aldeia foi sacrificada a favor da construção da barragem que hoje ali se vê e está agora submersa nas águas que esta represou.
Foi tomando-a aliás como ponto de referência que se desenvolveram os dois projectos que entre si disputaram a construção da Barragem: um, o chamado projecto do Caneiro-Dão, defendia que ela se construísse a montante, sem submergir a povoação; o outro, o projecto dito da Aguieira (apenas porque foi lá perto que foram feitas as primeiras sondagens), previa o desaparecimento da Foz-do-Dão, propondo a construção da Barragem logo a jusante da aldeia.
Este último, como se sabe, acabou por prevalecer.
E lá temos agora a barragem, com a sua imponente e bela albufeira e nela submersa a Foz-do-Dão, que sacrificou assim aquela terra, as suas gentes e a ancestral cultura daquele povo que de repente se viu pulverizado em pequenos núcleos familiares a assentar arraiais cada um em seu sítio diferente.
Não vejo que possa estabelecer-se alguma ligação da barragem com a povoação por cujo nome é conhecida, tanto mais que a distância que vai da barragem a essa povoação é bem maior do que a que separava aquela da Foz-do-Dão.
É certo que barragem propriamente dita é a sua estrutura de betão represadora das águas. Mas barragem é também mais comummente identificada com a própria albufeira que se forma a montante dessa estrutura de betão armado.
É mesmo essa albufeira, a extensão de água que ocupa e a quantidade que pode acumular que valoriza a barragem e lhe dá sentido, seja em termos energéticos e industriais, seja na perspectiva turística e ambiental.
E é no fundo dessa mesma albufeira que acabou por ficar para sempre esquecida a velha e pitoresca aldeia que se chamou Foz-do-Dão, assim eliminada da toponímia portuguesa.
Merecia por isso que, no mínimo, fosse lembrada, até porque imolou a sua própria vida e a continuidade da sua história, a sua existência, a sua cultura, tudo o que era, o que tinha e até alguns dos seus filhos à construção daquela barragem.
É por tudo isto que ainda não consegui entender porque é que lhe hão-de chamar, tão sem sentido, da Aguieira, em vez de ser chamada, como tão justamente devia ser, Barragem da Foz-do-Dão.

Texto informativo: Alcidio Mateus Ferreira
«Em baixo, a Aldeia da Foz do Dão tal como podia ser vista até 1980/81»
Clichés de autor desconhecido
«Imagem antiga da aldeia durante uma cheia de Inverno, tendo o nível do rio subido...»
A aldeia de Foz-do-Dão e a ponte Salazar a serem submersas
Em baixo, a Aldeia já praticamente toda mergulhada nas águas da Barragem da Aguieira, o seu actual "Cemitério". A aldeia jaz sob as águas...    

Fontes: 
- C.M. Santa Comba Dão
- Alcidio Mateus Ferreira
- Leitores (Informação recebida por mail)

Imagens:
- BPI (digitalização)
- Autores desconhecidos

1 comentário:

  1. Boas,
    somos um grupo de mergulhadores que temos intenção de fazer uma incursao subaquatica com a finalidade de tirar algumas fotos desta historica e submersa aldeia.
    Se tiver dados, mapas, informações, que nos possa disponibilizar, agredecemos e partilharemos as deascobertas.
    Obrigado e parabens pelo excelente blog.
    Jorge Bernardino
    jbdigit@gmail.com
    http://jbdigit.blogspot.com

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