A nobre profissão de carteiro (Portugal)

quinta-feira, 2 de abril de 2026

O carteiro surge oficialmente no ano de 1800, quando o então Correio-Mor, Mascarenhas Neto, cria o diploma referente à distribuição domiciliária de correio em Lisboa. Com este diploma, foram estabelecidos 17 distritos postais e iniciada a identificação das ruas e números de porta. Mas não só: foi também este documento que determinou a necessidade de contratar “portadores”, descritos como “moços vigorosos e fiéis”, para levar a correspondência diretamente à casa das pessoas.

Desta forma, há mais de 223 anos, nasceu formalmente a figura do carteiro — pelo menos no papel, uma vez que a aplicação prática da distribuição domiciliária só se concretizaria em 1821. A demora ficou a dever-se, sobretudo, à falta de uma identificação clara das ruas, o que dificultou a implementação imediata do sistema.

O tempo encarregou-se de consolidar o papel fundamental do carteiro na vida das populações. Foi ele quem, durante décadas, levou não só cartas e notícias, mas também esperança, comunicação entre famílias, documentos importantes e, muitas vezes, palavras de conforto em tempos difíceis. Poucas profissões carregam tamanha responsabilidade cívica e afectiva.

Nota: A título de curiosidade (ou talvez de triste realidade social) é de nosso conhecimento directo o caso de um indivíduo, ainda jovem e alegadamente formado em Psicologia, que, segundo relatos consistentes e em vários contextos, expressa sentir vergonha do próprio pai por este ter sido carteiro. Este tipo de atitude revela um complexo de inferioridade profundo e um preconceito de classe inaceitável. É especialmente grave vindo de alguém que, pela formação que alega ter, deveria prezar pela dignidade do trabalho humano, pela empatia e pela compreensão das raízes sociais e emocionais dos indivíduos. Um psicólogo que despreza um pai trabalhador, que exerceu com dignidade uma função pública essencial, não só contradiz os princípios da profissão como denuncia uma fragilidade pessoal que talvez exigisse acompanhamento — e não a responsabilidade de acompanhar outros.  Casos assim apenas nos fazem desejar, com genuína convicção, que a nossa saúde mental nos afaste sempre de certos “profissionais”.

A Devoção do Esforço: A Peixeira e o Sagrado Ofício da Sobrevivência no Porto de Oitocentos

A presente albumina, eivada da melancolia inerente ao processo fotográfico do final do século XIX, capta mais do que uma mera transação comercial; cristaliza uma arquétipo fundamental da psique e da economia do Norte de Portugal. Nele, observamos a figura central da peixeira, uma sentinela itinerante da nutrição urbana, imortalizada num espaço-tempo de transição.

O seu traje, longe de ser um adorno folclórico, é a manifestação tátil da sua funcionalidade e classe. A sobreposição rigorosa das saias pesadas, protegidas pelo avental de cotim (cuja ponta se vê habilmente presa à cintura, um detalhe técnico de quem domina a mobilidade no empedrado íngreme e escorregadio) dialoga com o xaile de travesseiro, cruzado sobre o peito e atado nas costas. Este "nó da peixeira" era a sua armadura contra a humidade da maresia e a aspereza do vime.

Sobre a rodilha de pano, que lhe serve de coroa sacrificial, balança a canastra, um microcosmo da faina. A sua pose, de uma naturalidade quase sacra, revela a dignidade silenciosa de quem carrega à cabeça o sustento da cidade. No entanto, o detalhe mais eloquente reside na orelha: a filigrana de ouro, que reluz mesmo na monocromia sépia, não é ostentação vã, mas a materialização do dote, a segurança económica da mulher piscatória, o seu património visível e intransferível.

A peixeira não vendia apenas mercadoria; ela performava o "pregão", um acto de ocupação auditiva do espaço público. O seu grito cortava o ar nas artérias já desaparecidas, como a antiga Rua do Laranjal, cujas casas envelhecidas e texturas corroídas pelo tempo servem aqui de cenário fúnebre a um Porto que se modernizava à custa do desaparecimento deste éthos medieval e comunitário. A imagem é, assim, um documento histórico insubstituível e uma ode à resiliência de um ofício que definia a pulsação da cidade.