Grande Hotel do Porto. (Porto)

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Grande Hotel do Porto em 1905
Não tendo (felizmente) até à presente data desaparecido, este hotel terá uma merecida publicação na nossa secção de "Retratos do Passado".
O Grande Hotel do Porto, abriu portas a 27 de Março de 1880. O Grande Hotel do Porto nasceu por vontade de Daniel Moura Guimarães, um abastado comerciante de arte que viajou pelo mundo e decidiu lançar ao arquitecto Silva Sardinha o desafio para conceber um hotel de referência no Porto. 
Daniel é trisavô do cantor e músico Pedro Abrunhosa, que passou muitos momentos da sua infância no hotel, onde o seu avô Álvaro Machado foi Director durante muitos anos.
Foi neste hotel onde se exilou a família imperial brasileira, em Novembro de 1889, no seguimento da proclamação da República e num dos seus quartos, um mês depois, acabaria por falecer Dona Teresa Cristina, esposa de D. Pedro II e última imperatriz do Brasil.
Até meados do século XX, altura em que abriu o Infante Sagres como mais luxuosa unidade hoteleira da cidade, o Grande Hotel do Porto foi local de passagem e estada para políticos e escritores ilustres. Foi morada de Eça de Queirós, conforme comprova a sua correspondência, e o local onde o primeiro-ministro republicano Afonso Costa seria detido na sequência do golpe de Estado de Sidónio Pais, em Dezembro de 1917. Serviu também de ponto de encontro para a homenagem da cidade a Gago Coutinho e Sacadura Cabral. A 8 de Dezembro de 1922, milhares de portuenses concentraram-se na Rua de Santa Catarina para dar as boas-vindas aos heróis da travessia aérea do Atlântico Sul. Nessa noite, Gago Coutinho e Sacadura Cabral jantaram no Grande Hotel e tanto as fotos como a ementa em francês estão ainda hoje patentes nas paredes.
A homenagem da cidade do Porto a Gago Coutinho e Sacadura Cabral, a 8 de Dezembro de 1922 teve a “participação” do Grande Hotel, pois foi aí que os heróis da travessia aérea do Atlântico Sul jantaram
O hotel abriu portas com algumas novidades. Os quartos tinham água quente e fria, havia um balneário público nas traseiras, que era utilizado pela população numa altura em que não havia casas de banho na maioria das habitações. E havia também serviços originais para a época, como o de os funcionários irem à Estação de São Bento buscar os hóspedes e as suas bagagens, que chegavam de comboio.
Rua de Santa Catarina
A traça do hotel não mudou nada praticamente, nem a decoração e o ambiente das zonas públicas, como a sala de jantar ou do Bar Duque de Windsor, que é uma homenagem a outro ilustre  hóspede. Já os quartos estão bastante diferentes, já que nos primeiros tempos o sistema elétrico era mais rudimentar e não havia condutas de ar condicionado ou sistemas de prevenção de incêndios.
 Grande Hotel do Porto - Interior - Cliché da Casa Alvão
Sala de jantar
 Cozinha

Fontes: 
- Diário de Notícias
- Grande Hotel do Porto

Salão Jardim da Trindade. (Porto)

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Salão Jardim da Trindade, 1913. Editor - Le Temps Perdu
O Salão Jardim da Trindade, como era designado em 1913, ano da sua inauguração, localizava-se na Rua do Almada e tinha uma lotação de quase 1200 lugares. Os antigos frequentadores da sala ainda hoje elogiam os seus distintivos vitrais azuis. Fechou em 1989 para dar lugar a um Bingo que funcionou até ao ano 2000.
Vistas exteriores, junto à Praça da Trindade. Clichés de autor desconhecido


Hospital Regional de Rezende. (Resende)

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Não é um edifício desaparecido, mas é sem dúvida um edifício muito alterado e ampliado, que merece uma publicação neste espaço.
Os terrenos ocupados pelo Hospital pertenciam ao senhor Luís Correia Pinto, da Freguesia de Resende, que ofereceu a sua "Quinta do Picotinho", hoje conhecida por "Quinta do Hospital", doando-a  à Santa Casa da Misericórdia de Resende já constituída.
A escritura de doação foi lavrada e assinada, no Cartório Notarial do Bacharel Amadeu Aarão Pinto dos Santos, no Largo da República da Vila de Resende, no dia 25 de Março de 1935.
Hospital Regional de Resende
A primeira pedra da obra do Hospital foi benzida, por Sua Excelência Reverendíssima, o Senhor Bispo de Lamego, D. Agostinho de Jesus e Sousa, em 08 de Outubro de 1934.
O custo do edifício do Hospital foi de duzentos e sessenta e um mil e oitocentos e noventa escudos. Os donativos recebidos no concelho foram de 111.746$20. O estado contribuiu com 82.000$00, a Câmara Municipal de Resende com 30.000$00 e a Junta de Província do Douro Litoral deu 23.000$00, com o encargo de o Hospital receber e tratar os doentes dos concelhos de Cinfães e Baião, e essa a razão de ser do Hospital se chamar " Regional".
Em 16 de Julho de 1939, dia do 68.º Aniversário do Dr. Rebelo Moniz, e Festa Litúrgica de Nossa Senhora do Carmo, numa celebração solene, foi inaugurado o Hospital Regional da Misericórdia de Resende. Presidiu o senhor Bispo de Lamego, Dom Agostinho de Jesus e Sousa e o orador convidado foi o Dr. Francisco Correia Pinto, nascido em Caldas de Aregos e criado em Freigil, lente da Universidade de Coimbra, um dos maiores oradores do seu tempo, ilustríssimo resendense e cónego da Sé do Porto. Na inauguração do Hospital, já estavam presentes as Irmãs Franciscanas Hospitaleiras Portuguesas, que, por influencia do Bispo da Diocese, Dom Agostinho, ficaram a dirigir o hospital logo no seu inicio e, mais tarde, também o Patronato. As Irmãs eram chefiadas pela superiora Irmã Francisca do Rosário, que se manteve à frente da comunidade até 1974, data em que as Irmãs saíram definitivamente de Resende. 
As Irmãs eram tudo naqueles tempos: enfermeiras, professoras e parteiras tanto no Hospital como no Patronato.

Fonte:
- Santa Casa da Misericordia de Resende

Soldado Milhões. (Aníbal Augusto Milhais)

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Aníbal Augusto Milhais nasceu em Valongo, concelho de Murça, no dia 09 de Julho de 1895. 
Milhais, posteriormente conhecido por "Milhões", seria o soldado Português mais condecorado da I Guerra Mundial e o único soldado Português premiado com a mais alta honra nacional, a Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, no campo de batalha, em lugar da habitual cerimónia pública na cidade de Lisboa.
Aníbal Milhais - Soldado Milhões, c. 1924. Arquivo BN
Em plena I Guerra Mundial e durante a Batalha de La Lys, mais exactamente na madrugada de 09 de Abril de 1918, dezenas de divisões alemãs irromperam pelo sector Português da frente, defendida pela segunda divisão do Corpo Expedicionário Português. 
A 2.ª Divisão do Corpo Expedicionário Português foi completamente devastada e esmagada, sacrificando-se na mesma, cerca de 7.500 vidas, contando com os mortos, os feridos, os desaparecidos e aqueles que foram capturados como prisioneiros de guerra.
Aníbal Augusto Milhais, que viria a ser conhecido por "Soldado Milhões", acabou sozinho na sua trincheira, munido apenas com a sua arma, uma metralhadora Lewis, conhecida entre os lusos como "a Luísa". 
Com invulgar coragem, que só no campo de batalha é possível obter, enfrentou sozinho as colunas alemãs que se atravessaram no seu caminho, permitindo a retirada de vários soldados portugueses e ingleses para as posições defensivas da retaguarda. Vagueando pelas trincheiras e campos, ora abandonadas pelos vivos, ora ocupados pelos alemães, o Soldado Milhões continuou ainda a fazer fogo esporádico, para o qual se valeu de cunhetes de balas que foi encontrando no terreno. 
Em primeiro plano: Aníbal Milhais. O "Soldado Milhões"
Quatro dias depois do início da batalha, encontrou um médico escocês, salvando-o de morrer afogado num pântano. Foi este médico, para sempre agradecido, que deu conta ao exército aliado dos feitos do soldado transmontano.
De regresso a um acampamento Português, o comandante Ferreira do Amaral saudou-o, dizendo-lhe que ficaria para a História de Portugal, "Tu és Milhais, mas vales Milhões!", afirmou.
Em 05 de Julho de 1924 o Parlamento alterou o nome da povoação de Valongo, para Valongo de Milhais, como reconhecimento pelos valorosos feitos de Aníbal Milhais.
Aníbal Augusto Milhais viria a falecer no dia 03 de Junho de 1970, já com uns respeitáveis 74 anos, na sua terra natal, em Valongo de Milhais, Murça.
Existe um Busto do "Soldado Milhões", na «Praceta Herói Milhões» em Murça. É uma obra do escultor Laureano Eduardo Pinto Guedes (1972-1973).
Está em exposição permanente parte do espólio (pistola, caderneta militar e medalhas) do "Soldado Milhões", no Museu Militar do Porto.

Fontes parciais:
- Freguesia de Valongo de Milhais, Câmara Municipal de Murça. 
- Corpo Expedicionário Português - Aníbal Milhais, November 19, 2008.
- O Soldado Milhões - Herói de Torre e Espada Jornal das Cortes. 

Sé de Lisboa - Obras de Restauro no Séc. XX.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

A Sé de Lisboa, ou Igreja de Santa Maria Maior, localiza-se na capital de Portugal. 
Actualmente é a sede do Patriarcado de Lisboa e da Paróquia da Sé. A construção da Sé teve início na segunda metade do século XII, após a tomada da cidade aos Mouros por D. Afonso Henriques, e apresenta-se hoje como uma mistura de estilos arquitectónicos. 
Esta construção está classificada como Monumento Nacional desde 1910.
Possuindo este edifício, muito conteúdo para se falar e debater, vamos no entanto, nesta publicação, apenas nos focar nas grandes obras de restauro, realizadas já no século XX.
Tendo sofrido ao longo dos anos, muitas alterações e acrescentos, grande parte das adições da era barroca foram retiradas a partir de uma grande campanha de restauro que ocorreu na primeira metade do século XX, cujo objectivo foi devolver à Sé algo de sua aparência medieval. 
Sé de Lisboa. Fachada principal no século XIX, antes das 
intervenções de Augusto Fuschini e António do Couto Abreu
Sé de Lisboa. A Catedral em início do séc. XX
O primeiro encarregado dos trabalhos, em 1902, foi Augusto Fuschini, que planeou um edifício revivalista em estilo neogótico. Augusto Fuschini demoliu algumas construções que flanqueavam a igreja, reconstruiu abóbadas, restaurou e abriu janelas e coroou de ameias o edifício. 
Sé de Lisboa - Projecto de Augusto Fuschini
Restauro da Sé, no olhar de Augusto Fuschini
Sé de Lisboa. Fachada principal com as obras de Fuschini
Sé de Lisboa. Fachada principal com as obras de Fuschini já mais adiantadas
Após a sua morte, em 1911, o projecto de restauro foi retomado e modificado por António do Couto Abreu, que passou a privilegiar as estruturas medievais ainda existentes. Foi reconstruída a abóbada da nave central, a fachada foi restaurada e refeita a rosácea, além de muitas outras alterações que deram ao edifício a aparência neo-românica que tem hoje. 
Nos planos estava incluída a construção de uma capela-mor neogótica, mas a oposição de figuras como os arquitectos Raul Lino e Baltasar de Castro salvaram tanto a decoração pós-terramoto da capela-mor como da Capela do Santíssimo.
Sé de Lisboa após as obras. Calótipo de Fionnbahrr Ó Súlleabháin
Após as reformas, a Sé foi reinaugurada em 1940, numa grande solenidade promovida pelo Estado Novo. Um Te Deum foi celebrado na Catedral no dia 05 de Maio de 1940, abrindo as cerimónias de celebração do 8.º Centenário da Fundação de Portugal e o 3.º Centenário da Independência. 
A Sé também foi importante na celebração do 8.º Centenário da Conquista de Lisboa aos Mouros, em 1947.

Fontes parciais:
- Arquivo Municipal de Lisboa (AML)
- BN

Hotel Universal. - de Ramires & C.ª - Porto.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O Hotel Universal, localizava-se na Praça da Batalha, rematando o lado sul da praça, com a Rua de Alexandre Herculano, no local exacto onde hoje em dia encontramos a Messe de Oficiais, sendo no seu tempo, um Hotel de destaque na cidade.
Não é propriamente dito um edifício desaparecido, mas antes um edifício transformado e adaptado a uma nova realidade. De facto em 1926 o Hotel daria lugar à Messe de Oficiais.
Hotel Universal em 1910, BPI.  Tornou-se Messe de Oficiais em 15-09-1926
 Hotel Universal no Porto, BPI c. 1913
 Praça da Batalha no Porto. Observamos o Hotel Universal
A Messe de Oficiais do Porto foi inaugurada em 15 de Setembro de 1926, no edifício, devidamente ampliado e adaptado para o efeito, onde por muito anos funcionou o Hotel Universal.
 Messe de Oficiais (desde 1926). Imagem: Bing Maps 3D
Imagens:
- BPI, digitalização
- Bing Maps

Rua de Cima do Muro da Trindade. (Porto)

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

aqui falamos, embora sumariamente, desta antiga e desaparecida artéria. 
A Rua de Cima do (ou de) Muro da Trindade, foi uma artéria existente, onde hoje se localiza a Rua dos Heróis e Mártires de Angola, junto ao edifício da Ordem da Trindade, no centro do Porto. 
Era uma rua bastante estreita, como podemos observar nos clichés.
Igreja da Trindade por volta de 1900. Cliché in AMP
Igreja da Trindade. Vista aérea. Vemos a desaparecida Rua de Cima do Muro
Rua de Cima do Muro da Trindade. Na esquerda vemos o edifício da Ordem
 Escadaria em granito, de acesso aos antigos edifícios
 Esquerda da imagem: Escadaria e edifícios actualmente demolidos
Direita da imagem: Vista parcial do edifício da Ordem da Trindade
Evacuação dos habitantes para serem realojados em novos bairros
 Entrada da rua, junto à igreja da Trindade, parcialmente visível à direita
 Vista parcial da igreja da Trindade. Na esquerda vemos a desaparecida artéria
 Vista parcial do largo da Trindade e do edifício camarário
Construção do edifício da CMP, vendo-se a então ainda existente, Rua do Cimo do Muro da Trindade
Fotografia aérea da cidade do Porto: 1939-1940. Entre muitos pormenores salientemos: O edifício branco na base da imagem é a Câmara Municipal, a seguir vemos um largo que a separa da Igreja da Trindade 
A estreita via, na esquerda da Igreja e do edifício da Ordem anexo à mesma, é a desaparecida Rua de Cima do Muro da Trindade, que actualmente, muito mais larga, se denomina por Rua dos Heróis e Mártires de Angola
Nos inícios da década de 60 do séc. XX, iniciaram-se as demolições do casario que compunha a Rua de Cima do Muro da Trindade, para ser aberta a rua que hoje se chama dos Heróis e Mártires de Angola.
 O derrube do casario da Rua de Cima do Muro
 Café Primavera, na esquina das ruas de Alferes Malheiro com a de Cima do Muro da Trindade. Este casario foi demolido nas obras de alargamento
 O derrube do casario da Rua de Cima do Muro

 Vista parcial das obras
Nasceu a "Pedreira" que se manteve por décadas
 Ângulo oposto
A nova artéria, muito mais larga
 A "novíssima" Rua dos Heróis e Mártires de Angola
Rua dos Heróis e Mártires de Angola
 Rua dos Heróis e Mártires de Angola. Cliché idêntico ao anterior

Imagens:
- BPI (digitalizações)
- Arquivo Municipal do Porto

O «Tank» abandonado na estrada dos Carvalhos.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Documento/Processo, [1926] – [1926]. Local de Edição: [s.l.] Editor: [s.n.]
In: Arquivo Municipal do Porto
Antigo carro de combate / tanque de guerra, que remontaria à Primeira Guerra Mundial (1914-1918). 
Foi, por algum motivo, (avaria?) abandonado na estrada que liga aos Carvalhos e captado nesta imagem, supostamente obtida em 1926.

O Tanoeiro.

Tanoeiro, também designado por toneleiro, é um artesão dedicado ao fabrico de barris, pipas ou tonéis para embalar, conservar e transportar mercadorias, principalmente líquidos, como o vinho.
Os barris podem ser feitos de diversos tipos de madeira, consoante o desejado (carvalho, castanho, mogno, acácia ou eucalipto), mas são os de madeira de carvalho aqueles de melhor conserva. 
A madeira ideal para conservar bebidas é a proveniente de carvalhos que tenham aproximadamente 150 anos. Após o abate da árvore, a madeira deve ficar cerca de 3 anos a secar ao ar livre.
Fabricação de tonéis. Gravura de Jost Amman. Standebuch, 1568
Tanoeiros. Cliché de autor desconhecido
No norte de Portugal, durante séculos, gerações de tanoeiros dedicaram as suas vidas à arte da tanoaria, fazendo milhares de pipas, toneis e balseiros de madeira, usados para o transporte e envelhecimento do vinho do Porto. 
O conhecimento técnico era passado de geração em geração. Usavam como ferramentas várias enchós: a normal, a direita, a de goiva, a fechada e a de concha; serra e serrote; plaina de cavalete; compasso; trava de meia cana (para fazer o buraco da vasilha) e martelos.
Casa dos Almadas na Rua das Sete Passadas, freguesia de Santa Marinha
em Vila Nova de Gaia. Transporte de pipas. Emílio Biel c. 1905
Antigo barco rabelo carregado de pipas de vinho do Porto junto da Régua. BPI

Igreja de Cedofeita, pelo Arquitecto Marques da Silva. (Porto)

Já aqui falamos pormenorizadamente do demolido Mosteiro de São Bento de Avé-Maria, localizado onde actualmente se ergue a estação ferroviária de S. Bento. 
Como referimos, a demolição dos claustros começou em 1894 e a igreja seria demolida entre Outubro de 1900 e  Outubro de 1901.
Mosteiro de São Bento de Avé-Maria. Vista geral
Entrada da igreja. Emílio Biel
 Fachada e entrada da igreja. Albumina de Emílio Biel
No ano de 1894, o formidável arquitecto Marques da Silva regista na sua agenda o recebimento de 150 reis pelo levantamento de planta da Igreja de S. Bento da Avé-Maria, por conta da Confraria do Santíssimo Sacramento de Cedofeita. 
A nota reveste-se de grande importância por indiciar o cruzamento do processo de construção da nova Igreja paroquial de Cedofeita com o processo de construção da Estação Central de Caminhos de Ferro no Porto. O arquitecto designado para os projectar será o mesmo, o então jovem e promissor estudante de arquitectura, José Marques da Silva. 
O destino dos projectos será diametralmente oposto: se a icónica Estação de S. Bento se afirma ainda hoje orgulhosamente no território da cidade, o que ainda resta do monumental templo ambicionado pela Colegiada de Cedofeita, para sempre inacabado, a Capela-mor e os seus anexos, sobrevive conciliado com a actual Igreja de betão, projectada por Eugénio Alves de Sousa em 1963, numa coexistência dissimulada, que o torna praticamente invisível ao olhar público.
Marques da Silva, Estudo para a fachada da Igreja de Cedofeita, s.d.
Imagem in: Fundação Marques da Silva
O grande impulsionador da ideia de construir uma nova igreja paroquial para Cedofeita será António José Gomes Samagaio, juiz da Confraria, desde 1884, mais tarde Presidente da Associação Industrial do Porto e Vereador do Município. Para a concretizar, a Confraria, para além da doação de terrenos pertencentes à Quinta do Priorado e verbas próprias, ver-lhe-á ser atribuída, por Portaria de 1896, a gestão da demolição da parte restante do Convento e da igreja de S. Bento da Avé-Maria, razão pela qual herdará parte dos seus materiais, alfaias, mobiliário e objectos de talha.
Mosteiro de São Bento de Avé-Maria 
Retábulo da igreja. Albumina de Emílio Biel
Os Livros de Atas documentam a existência de contactos com Marques da Silva, nomeadamente em 1895, ano em que este apresenta, em Paris, cidade onde está a ultimar a sua formação, o projecto Naves de uma igreja abobadada, para a disciplina de Teoria da Arquitectura, cujos desenhos e enunciado se encontram preservados na Fundação e permitem estabelecer uma ligação com o esboço da primeira planta da nova igreja. A configuração arquitectónica da igreja passou por várias fases ao longo do tempo, como os vários desenhos existentes o confirmam. O primeiro projecto transporta claras influências do neorromantismo, com ecos da Basílica do Sacré-Coeur, antecipando fórmulas que, por exemplo, Ventura Terra virá a aplicar em Santa Luzia. Mas o volume da construção será gradualmente reformulado, em resposta às alterações pedidas pela Mesa da Confraria. 
Projecto do Arquitecto Marques da Silva para a igreja de Cedofeita, em 1896
As transformações são particularmente evidentes nos desenhos das fachadas do templo onde, sem perda do peso visual, se abdica da abóbada para reforçar um crescendo ascensional colmatado por uma torre composta de duas plataformas (a dos sinos e dos lanternins). Este projecto, que António Cardoso denomina de “joanino”, apresenta no alçado principal, dois corpos, até ao nível da cornija geral. No corpo saliente, ao qual se acede através de um escadório, sobressaem, no piso térreo, o tramo central, com um portal ladeado por colunas dóricas, e, no segundo andar, a modenatura e elementos decorativos do balcão, onde dois pedestais suportam as figuras de Maria e de S. Martinho, patrono de Cedofeita. Uma platibanda com ressaltos e esculturas sedentes estabelece a ligação para a torre, encimada por uma cruz. Em traços gerais, um projecto fortemente marcado pela presença do granito e pelo ecletismo das opções decorativas, ancorado nos elementos que permitem configurar o átrio e estruturar o transepto e a Capela-mor, com a monumentalidade característica do imaginário beauxartiano.
Depois de promovida a venda em hasta pública de alguns materiais provenientes das demolições, a 1 de Outubro de 1899, com a bênção do Bispo do Porto, D. António Barroso, é promovido o assentamento da primeira pedra da nova igreja de Cedofeita. Mas serão vários os entraves colocados ao processo de construção, desde a lentidão e onerosidade das demolições e remoções até às crises económicas que se vão sucedendo, com reflexos imediatos nas receitas da Confraria (subscrições, benefícios e donativos). Nem a atribuição de subsídios governamentais, nem os legados, nem os empréstimos contraídos serão suficientes para validar a construção. Em 1911, apesar de cinco anos antes, D. António Barroso ter celebrado a primeira missa na capela provisória da igreja, a falta de consenso sobre a necessidade de concretizar uma igreja tão sumptuosa impõe-se e as obras ficam suspensas. Novas peças assinadas por Marques da Silva, datadas de 1924, assinalam o retomar do processo de construção da igreja e dos equipamentos anexos. Também as compensações da Junta de Construções Escolares, pela cedência e troca de terrenos, tendo em vista a implantação do Liceu Rodrigues de Freitas, projecto atribuído a Marques da Silva, serão canalizados para as obras em curso, que, em 1936/7, ainda registam um projecto do arquitecto para construção de creche e de nova moradia para o pároco. A onerosidade e morosidade da construção, a adopção de outros valores estéticos vão condenar irremediavelmente o projecto. Em 1941, Duarte Pacheco, Ministro das Obras Públicas ainda chega a propor que o corpo principal poderia receber a obra de talha da Igreja de S. Francisco, mas não deixa de defender a demolição do que estava feito e a passagem a uma nova construção. Ainda assim é pedida uma simplificação do projecto a Marques da Silva, mas já ninguém acredita na realização de uma obra, então considerada, de arquitectura pesada e de dimensões exageradas.
Apesar de ter permanecido inconclusivo e renegado pela entrada em vigor de novos cânones e modelos, em particular no que se refere à arquitectura religiosa, este projecto de Marques da Silva reveste-se de particular importância e significado pela forma como se cruza com os desenvolvimentos políticos, económicos e sociais que marcaram o Porto entre finais do século XIX e a primeira metade do século XX: o processo de construção da Estação Central de Caminhos de Ferro, o programa e o papel desempenhado pelas Irmandades na cidade ou mesmo a implantação dos liceus.

Fonte parcial:
- Fundação Marques da Silva
Bibliografia:
CARDOSO, António - O arquitecto José Marques da Silva e a arquitectura no Norte do País na primeira metade do séc. XX. Porto: Faup-publicações, 1997, pp. 105-108; 431-439; 467.
MOTA e COSTA, Orlando – Igreja Paroquial de S. Martinho de Cedofeita. Porto: Igreja Paroquial de S. Martinho de Cedofeita, 2007, pp. 22-26.