Igreja de Cedofeita, pelo Arquitecto Marques da Silva. (Porto)

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Já aqui falamos pormenorizadamente do demolido Mosteiro de São Bento de Avé-Maria, localizado onde actualmente se ergue a estação ferroviária de S. Bento. 
Como referimos, a demolição dos claustros começou em 1894 e a igreja seria demolida entre Outubro de 1900 e  Outubro de 1901.
Mosteiro de São Bento de Avé-Maria. Vista geral
Entrada da igreja. Emílio Biel
 Fachada e entrada da igreja. Albumina de Emílio Biel
No ano de 1894, o formidável arquitecto Marques da Silva regista na sua agenda o recebimento de 150 reis pelo levantamento de planta da Igreja de S. Bento da Avé-Maria, por conta da Confraria do Santíssimo Sacramento de Cedofeita. 
A nota reveste-se de grande importância por indiciar o cruzamento do processo de construção da nova Igreja paroquial de Cedofeita com o processo de construção da Estação Central de Caminhos de Ferro no Porto. O arquitecto designado para os projectar será o mesmo, o então jovem e promissor estudante de arquitectura, José Marques da Silva. 
O destino dos projectos será diametralmente oposto: se a icónica Estação de S. Bento se afirma ainda hoje orgulhosamente no território da cidade, o que ainda resta do monumental templo ambicionado pela Colegiada de Cedofeita, para sempre inacabado, a Capela-mor e os seus anexos, sobrevive conciliado com a actual Igreja de betão, projectada por Eugénio Alves de Sousa em 1963, numa coexistência dissimulada, que o torna praticamente invisível ao olhar público.
Marques da Silva, Estudo para a fachada da Igreja de Cedofeita, s.d.
Imagem in: Fundação Marques da Silva
O grande impulsionador da ideia de construir uma nova igreja paroquial para Cedofeita será António José Gomes Samagaio, juiz da Confraria, desde 1884, mais tarde Presidente da Associação Industrial do Porto e Vereador do Município. Para a concretizar, a Confraria, para além da doação de terrenos pertencentes à Quinta do Priorado e verbas próprias, ver-lhe-á ser atribuída, por Portaria de 1896, a gestão da demolição da parte restante do Convento e da igreja de S. Bento da Avé-Maria, razão pela qual herdará parte dos seus materiais, alfaias, mobiliário e objectos de talha.
Mosteiro de São Bento de Avé-Maria 
Retábulo da igreja. Albumina de Emílio Biel
Os Livros de Atas documentam a existência de contactos com Marques da Silva, nomeadamente em 1895, ano em que este apresenta, em Paris, cidade onde está a ultimar a sua formação, o projecto Naves de uma igreja abobadada, para a disciplina de Teoria da Arquitectura, cujos desenhos e enunciado se encontram preservados na Fundação e permitem estabelecer uma ligação com o esboço da primeira planta da nova igreja. A configuração arquitectónica da igreja passou por várias fases ao longo do tempo, como os vários desenhos existentes o confirmam. O primeiro projecto transporta claras influências do neorromantismo, com ecos da Basílica do Sacré-Coeur, antecipando fórmulas que, por exemplo, Ventura Terra virá a aplicar em Santa Luzia. Mas o volume da construção será gradualmente reformulado, em resposta às alterações pedidas pela Mesa da Confraria. 
Projecto do Arquitecto Marques da Silva para a igreja de Cedofeita, em 1896
As transformações são particularmente evidentes nos desenhos das fachadas do templo onde, sem perda do peso visual, se abdica da abóbada para reforçar um crescendo ascensional colmatado por uma torre composta de duas plataformas (a dos sinos e dos lanternins). Este projecto, que António Cardoso denomina de “joanino”, apresenta no alçado principal, dois corpos, até ao nível da cornija geral. No corpo saliente, ao qual se acede através de um escadório, sobressaem, no piso térreo, o tramo central, com um portal ladeado por colunas dóricas, e, no segundo andar, a modenatura e elementos decorativos do balcão, onde dois pedestais suportam as figuras de Maria e de S. Martinho, patrono de Cedofeita. Uma platibanda com ressaltos e esculturas sedentes estabelece a ligação para a torre, encimada por uma cruz. Em traços gerais, um projecto fortemente marcado pela presença do granito e pelo ecletismo das opções decorativas, ancorado nos elementos que permitem configurar o átrio e estruturar o transepto e a Capela-mor, com a monumentalidade característica do imaginário beauxartiano.
Depois de promovida a venda em hasta pública de alguns materiais provenientes das demolições, a 1 de Outubro de 1899, com a bênção do Bispo do Porto, D. António Barroso, é promovido o assentamento da primeira pedra da nova igreja de Cedofeita. Mas serão vários os entraves colocados ao processo de construção, desde a lentidão e onerosidade das demolições e remoções até às crises económicas que se vão sucedendo, com reflexos imediatos nas receitas da Confraria (subscrições, benefícios e donativos). Nem a atribuição de subsídios governamentais, nem os legados, nem os empréstimos contraídos serão suficientes para validar a construção. Em 1911, apesar de cinco anos antes, D. António Barroso ter celebrado a primeira missa na capela provisória da igreja, a falta de consenso sobre a necessidade de concretizar uma igreja tão sumptuosa impõe-se e as obras ficam suspensas. Novas peças assinadas por Marques da Silva, datadas de 1924, assinalam o retomar do processo de construção da igreja e dos equipamentos anexos. Também as compensações da Junta de Construções Escolares, pela cedência e troca de terrenos, tendo em vista a implantação do Liceu Rodrigues de Freitas, projecto atribuído a Marques da Silva, serão canalizados para as obras em curso, que, em 1936/7, ainda registam um projecto do arquitecto para construção de creche e de nova moradia para o pároco. A onerosidade e morosidade da construção, a adopção de outros valores estéticos vão condenar irremediavelmente o projecto. Em 1941, Duarte Pacheco, Ministro das Obras Públicas ainda chega a propor que o corpo principal poderia receber a obra de talha da Igreja de S. Francisco, mas não deixa de defender a demolição do que estava feito e a passagem a uma nova construção. Ainda assim é pedida uma simplificação do projecto a Marques da Silva, mas já ninguém acredita na realização de uma obra, então considerada, de arquitectura pesada e de dimensões exageradas.
Apesar de ter permanecido inconclusivo e renegado pela entrada em vigor de novos cânones e modelos, em particular no que se refere à arquitectura religiosa, este projecto de Marques da Silva reveste-se de particular importância e significado pela forma como se cruza com os desenvolvimentos políticos, económicos e sociais que marcaram o Porto entre finais do século XIX e a primeira metade do século XX: o processo de construção da Estação Central de Caminhos de Ferro, o programa e o papel desempenhado pelas Irmandades na cidade ou mesmo a implantação dos liceus.

Fonte parcial:
- Fundação Marques da Silva
Bibliografia:
CARDOSO, António - O arquitecto José Marques da Silva e a arquitectura no Norte do País na primeira metade do séc. XX. Porto: Faup-publicações, 1997, pp. 105-108; 431-439; 467.
MOTA e COSTA, Orlando – Igreja Paroquial de S. Martinho de Cedofeita. Porto: Igreja Paroquial de S. Martinho de Cedofeita, 2007, pp. 22-26.

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