Destruição de um Palacete... para Hotel, claro! (Porto)

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Nas palavras do grande conhecedor da história da Invicta Germano Silva, a história deste edifício é “nebulosa”, mas sabe-se que na segunda metade do século XVIII, em 1862, pertenceu a Armando Artur Ferreira de Seabra da Mota Silva, da burguesia portuense da época.
Em meados do século XIX, o palacete secular esteve para ser expropriado pela Câmara do Porto, por alturas em que a autarquia andava a abrir a rua hoje baptizada de José Falcão.
Só não foi expropriado, porque o traçado da rua foi alterado”, conta Germano Silva, recordando que o edifício se distinguia pelos painéis de azulejos.
Em finais do século XIX, o palacete, que chegou a ser uma padaria e armazém de fazendas, pertencia a Artur Augusto de Albuquerque Seabra, professor de matemática e antigo jornalista que pertenceu à Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto.
Palacete do século XVIII. Corpo total do edifício in Google Maps
 Palacete do século XVIII. Edifício completo
 O palacete, devoluto, mas ainda com todas as suas paredes e telhado in portojofotos
Recentemente foi (ou está ainda a ser) esventrado, aliás destruído na sua essência, visto do mesmo já só restar a sua fachada frontal. Todas as outras paredes de granito foram derrubadas e o seu interior desapareceu, dando, no momento exacto em que escrevemos este artigo, lugar ao um gigantesco e profundo abismo.
Destruição de um palacete
Fachada frontal. A única coisa que sobrou do palacete
  Traseira da única fachada que permaneceu de pé

 Destruição de um palacete. Uma cratera imensa no local do histórico edifício
Do palacete, restou apenas a fachada frontal voltada para o Largo Moinho de Vento
O objectivo desta, a nosso ver, abominável destruição, é criar mais um hotel de cinco estrelas, com 60 quartos, em 2019, segundo informou à comunicação social, o administrador da Vidamar, Pedro Costa.  
O novo hotel, que se vai chamar Hotel Oporto Wine & Books, vai ter seis pisos acima do solo e dois pisos abaixo da cota da soleira, e uma volumetria de 11 mil metros quadrados, lê-se no “Aviso” afixado junto à obra e cujo titular do alvará é a Worldlounge, Lda.
A constructora espanhola Sanjose foi a empresa que recebeu a adjudicação da Worldlounge Lda – Hoteis com restaurante para executar “primeira fase das obras do Hotel Oporto Wine & Books, lê-se na página da Internet daquela empresa.

Imagens:
- Google Maps
- Blogue portojofotos
- Alexandre Silva

8 comentários

Maria José disse...

E quem autorizou foi a Câmara infelizmente

8 de julho de 2017 às 12:30
antónio disse...

Aquilo que foi relatado está muito certo, mas há um "mas". É que este tipo se situações envolve uma complexidade difícil de solucionar, onde, quase sempre, o bom é inimigo do óptimo.Em casos como este eu questiono-me, qual é melhor, deixar como estava aquele prédio degradado - próprio duma situação terceiromundista - que dentro de dois ou três anos seria uma ruína, ou fazer uma intervenção que recupere o local - que tem de ser economicamente viável - aproveitando do mesmo aquilo que a razoabilidade e bom senso aconselhem? Se, cada um de nós, fosse o proprietário desse prédio e não tivesse a fortuna do Bill Gates o que é que faria? Fico sempre admirado e desapontado quando vejo que há quem considere louvável que o Porto persista em ser a Havana da Europa.

12 de julho de 2017 às 14:59
Administrador disse...

Sem dúvida uma recuperação digna, seria mais que desejável, o ideal, mas não é isso que ocorre neste espaço. O que vemos aqui é a destruição total de um edifício várias vezes secular, para dar origem a um prédio de tijolo e betão, aproveitando unicamente como "souvenir" a fachada frontal, o que é lastimável. Uma recuperação, digna de tal conceito, respeitaria todo o corpo do edifício, bem como aquilo que existisse no interior que pudesse ser mantido (eventuais escadarias em granito, por exemplo). Um edifício destes, devidamente recuperado, poderia ter uma infinidade de usos: Um restaurante de nível, turismo de habitação, um posto público de atendimento (saúde, turismo, etc.) Assim é apenas mais um edifício com História que o Porto perde...

24 de julho de 2017 às 10:01
Rui Botelho disse...

Naturalmente. Renovar nao quer invariavelmente dizer destriur!

20 de setembro de 2017 às 12:33

Podemos analisar cada uma das suas propostas: Restaurante - não ficaria muito mais barato comprar ou alugar um andar num prédio em boas condições do que reabilitar todo um edifício só para meter lá um restaurante? Posto público de atendimento - numa altura em que o estado está asfixiado conseguiria dispender uns bons milhões a reabilitar um prédio quando muitos dos seus postos de atendimento estão a ser fechados?
A verdade é que as únicas alternativas realistas são a não permissão de demolir o edifício e continuação do seu estado de degradação, ou o que se fez (e já foi um longo caminho desde a destruição absoluta que se praticava até á pouco tempo, como prova o vosso blog). Entre estas hipóteses, que são as únicas realistas, é que se deve dar a discussão - e há muitos bons argumentos a favor e contra cada uma delas.

20 de setembro de 2017 às 13:51
Vieira disse...

Caso o referido edifício tivesse relevante valor histórico, cultural e arquitectónico, teria sido protegido nos termos da legislação em vigor. Temos regras para estas situações, podemos não ser o país mais avançado do mundo mas também não somos de terceiro mundo.
Nunca vi ninguém preocupado com a situação do edifício enquanto esteve ao abandono. Nem nenhuma entidade pública ou privada investir nele para reverter a situação. Claro que uma cidade histórica deve ser protegida, mas não parar no tempo nem ser de tal modo estática que nada possa ser feito.
Não podemos andar a criar postos de turismo nem museus ao virar de cada esquina só para manter edifícios. Em algum ponto tem que se compreender que a maioria das situações irá requerer uma actividade económica viável para manter o edificado de uma cidade.

21 de setembro de 2017 às 09:44
marta sobral disse...

Também não me agrada que o Porto seja uma Havana, mas muito menos uma cidade sem alma, que poderia ser conhecida pela cidade "Dos tróleis e arrumadores", dada a descaracterização que está a sofrer. nada contra o turismo, mas qualquer dia os turistas vêm ao Porto para conhecer..... turistas. Apenas!

21 de setembro de 2017 às 17:09
Administrador disse...

Sr. José Carlos Romão.
O Estado, (ou seja nós) está "axfixiado" há muitas décadas, mas isso não tem impedido os nossos governantes de edificar coisas (por vezes faraónicas e sem grande aplicação prática) que custam fortunas e a maioria das vezes ficam muito mais caras, que o valor orçamentado, que já de si é sempre alto. Não seria melhor e mais económico aproveitar edifícios como este? Daria muito menos "luvas" que uma obra de raiz, é certo, talvez só por isso perca o interesse...

29 de setembro de 2017 às 11:31

Enviar um comentário