A Ourivesaria Paz: Hermenêutica da Tradição e da Estética Suntuária na Rua de Cedofeita (Porto).

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

A Ourivesaria Paz, historicamente implantada no número 507 da Rua de Cedofeita, constitui um objecto de estudo privilegiado para a compreensão das dinâmicas do comércio de luxo e da pequena manufactura de metais preciosos na cidade do Porto. A sua inserção nesta artéria (um dos eixos primaciais da expansão urbana oitocentista sob a égide dos Almadas) confere-lhe um estatuto de testemunho da prosperidade burguesa que caracterizou a Invicta na transição para a modernidade.

Do ponto de vista da História da Arte e das Artes Decorativas, este estabelecimento operou como um mediador entre a erudição da ourivesaria portuense e a devoção telúrica das populações que, das periferias rurais e das zonas residenciais adjacentes, procuravam o ouro como reserva de valor e capital simbólico. A Ourivesaria Paz especializou-se num segmento que fundia a joalharia de gala com a relojoaria de precisão, mantendo viva a tradição da Contrastaria do Porto, cuja chancela garantia o rigor e a pureza do metal negociado.

Arquitectonicamente, o edíficio que albergava a casa reflecte a sobriedade do Neoclássico portuense, com as suas molduras de granito e vãos ritmados, proporcionando uma cenografia de respeitabilidade que era indissociável da confiança exigida no trato de pedras e metais nobres. A permanência da Ourivesaria Paz no tecido urbano de Cedofeita, para além das meras vicissitudes mercantis, representou a continuidade de uma ética de ofício, onde a figura do ourives-comerciante assumia o papel de guardião de heranças familiares e ritos de passagem, materializados em peças de ouro de lei.

Em suma, a memória da Ourivesaria Paz transcende a efemeridade do registo comercial para se fixar como um baluarte da identidade social e económica do Porto, espelhando uma época em que o comércio tradicional era o principal esteio da estabilidade e do prestígio da classe média urbana.

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