Assembleia Portuense: Memória e Identidade Imobiliária

quinta-feira, 30 de julho de 2026

A trajectória física e institucional da Assembleia Portuense circunscreve-se à ocupação sucessiva de dois imóveis distintos no antigo Largo do Laranjal (espaço posteriormente reestruturado e absorvido pelo traçado da Praça da Trindade e da Avenida dos Aliados), no coração da cidade do Porto.
Fundada a 31 de Maio de 1834, no rescaldo da vitória liberal, a agremiação fixou-se na década de 1840 num palacete situado no Largo do Laranjal, ligado à família Ferreira (da qual fazia parte D. Antónia Adelaide Ferreira, a "Ferreirinha"). Este espaço de reunião restrito acolheu o apogeu sociocultural da alta burguesia comercial e financeira da cidade. Devido à sua matriz ideológica tradicionalista e ao perfil marcadamente conservador dos seus frequentadores, a agremiação acabou por ficar popularmente imortalizada e satirizada pela pena de Camilo Castelo Branco sob o epíteto de "O Palheiro", alusão corrosiva ao ambiente estático do clube e ao piso forrado a esparto da sua sala principal.
Praça do Laranjal (Trindade). Palacete "Ferreirinha"


O destino da sede primitiva começaria a traçar-se em 1857. Sob a pressão de constrangimentos financeiros resultantes da conjuntura económica do pós-1840, a Direcção propôs abolir a oferta noturna da ceia de chá e iguarias aos associados. Conhecido na historiografia portuense como a "Questão do Chá", este episódio serviu de catalisador visível para divergências sociopolíticas e estéticas mais profundas entre a facção tradicionalista e uma ala ascendente de perfil mais cosmopolita. A facção defensora do costume saiu derrotada em Assembleia Geral e, inconformada, fundou o Club Portuense a 24 de maio de 1857, vindo a assumir o arrendamento do palacete do Laranjal e forçando a Assembleia Portuense a desocupar o espaço.
A reinstalação da Assembleia Portuense consumou-se em 1859, ano em que a instituição transferiu a sua sede para um imóvel alternativo, situado na confluência da Praça da Trindade com a antiga Travessa da Rua do Almada. Foi nestas instalações que a agremiação geriu o seu declínio sociocultural, entrando em paralisia progressiva de funcionamento nos primeiros anos do século XX, por volta de 1905, embora mantendo a existência jurídica e a ligação ao edificado até à década seguinte.
Assembleia Portuense 

O palacete resistiu até ao início das grandes transformações urbanísticas de abertura da Avenida das Nações Aliadas, projectadas a partir de 1915 sob a orientação do urbanista Barry Parker. Na área urbana reorganizada onde se localizava essa segunda sede, ergue-se actualmente o Palácio do Clube dos Fenianos Portuenses (edifício assinado pelo arquitecto F. de Oliveira Ferreira e inaugurado em 1935), estrutura que perpetua a memória do associativismo patrimonial e recreativo daquela centralidade portuense.

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