Memória e Destino da Estação Ferroviária de Porto-Boavista: Um Imperativo de Civilidade

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

 A Estação Ferroviária de Porto-Boavista, inaugurada a 1 de Outubro de 1875, permanece no imaginário portuense como o génese da modernidade ferroviária na urbe. Foi o primeiro terminal construído dentro dos limites municipais, servindo de portal para as Linhas da Póvoa e de Guimarães. Sob a égide da bitola estreita, este edifício não foi apenas um entreposto de mercadorias e passageiros; foi o motor de uma revolução socioeconómica que conectou o vigor industrial do Minho ao coração do Porto, consolidando a Boavista como um nó vital de articulação territorial.

​Arquitectonicamente, o imóvel é um exemplar da sobriedade funcional oitocentista, onde a pedra e o ferro testemunham a transição para uma era de mobilidade mecanizada. Após a desactivação do serviço ferroviário em 2001, para dar lugar à rede do Metro do Porto, o edifício transitou de uma funcionalidade pragmática para uma dimensão puramente patrimonial e simbólica.

​Da Fundamentação Contra a Profanação Urbanística

​A eventual edificação de uma grande superfície comercial sobre este sítio histórico afigura-se como um equívoco de planeamento e uma ofensa à identidade coletiva, sustentada pelos seguintes vetores:

A Irreversibilidade da Perda Patrimonial: O património histórico constitui um recurso finito e insubstituível. Sacrificar um vestígio fundador da história ferroviária em prol de uma estrutura comercial de obsolescência programada representa uma miopia cultural que oblitera a memória em nome de uma rentabilidade efémera.

A Saturação do Ecossistema Urbano: A zona da Boavista e da Casa da Música atingiu já o seu limiar de densificação. A introdução de um mega-empreendimento comercial agravará a sobrecarga infraestrutural, comprometendo a fluidez da mobilidade e degradando a qualidade de vida urbana através de uma pressão volumétrica e de tráfego insustentável.

O Valor da Singularidade vs. a Padronização: A excelência de uma metrópole contemporânea afere-se pela sua capacidade de preservar a sua alma. A substituição da estação por um modelo de consumo globalizado descaracteriza o Porto, trocando a sua narrativa histórica única por um "não-lugar" genérico, desprovido de génio local e de valor estético diferenciador.

​Em suma, a preservação da Estação da Boavista não é um gesto de saudosismo estéril, mas um ato de resistência intelectual. Defender a integridade deste espaço é exigir um urbanismo que privilegie o equilíbrio ambiental, a memória histórica e a dignidade do espaço público sobre a lógica predatória da exploração imobiliária desenfreada.

Contagiarte (Rua Álvares Cabral, 372, Porto): História, Função e Enquadramento Factual

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

O Contagiarte foi um proeminente centro de atividade cultural sediado no número 372 da Rua Álvares Cabral, no Porto, cuja existência se estendeu das décadas finais do século XX até meados da década de 2010. O espaço distinguia-se por não se confinar a um estabelecimento comercial, operando sob a égide da Acaro (Associação Artística de Artes Organizadoras e de Laboratório de pesquisa, investigação e experimentação artísticas), o que lhe conferia um estatuto formal de associação cultural sem fins lucrativos.

​Localização e Estrutura:

Ocupando uma imponente moradia burguesa com traça dos finais do século XIX, o Contagiarte soube reconfigurar o edifício histórico para acomodar diversas valências artísticas. A estrutura interna integrava um café-concerto, um anfiteatro, e uma galeria de exposições, sendo particularmente célebre o seu amplo jardim e esplanada nas traseiras, que funcionava como palco informal e locus de convívio social.

Programação e Impacto Cultural:

A sua programação era notavelmente eclética e independente, refletindo a missão da Acaro como um "laboratório" de experimentação artística. O foco recaía sobre:

​Música: Forte incidência em géneros folk, jazz, reggae e música do mundo, servindo de plataforma a bandas e artistas da cena underground e indie portuguesa e internacional.

​Artes Cénicas e Visuais: Promoção contínua de exposições de artes plásticas, sobretudo de jovens artistas, e espetáculos de teatro experimental, performance e poesia.

​O Contagiarte desempenhou um papel crucial na dinamização cultural noturna do Porto, sendo um ponto de encontro e sociabilidade para a comunidade artística, estudantes universitários e a população estrangeira (em particular a comunidade Erasmus), atraída pelo seu ambiente autêntico e descomprometido.

​Encerramento e Legado:

O seu percurso terminou devido ao acelerado processo de reabilitação urbana da zona central do Porto. O edifício 372 da Rua Álvares Cabral foi subsequentemente convertido num empreendimento residencial de luxo. Contudo, o Contagiarte permanece referenciado como um dos centros mais relevantes e autênticos da cultura alternativa e de intervenção do Porto na sua época.

O Empório Por Fi Rios: Efervescência Sociocultural na Rua de Santa Catarina

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

A antiga casa de pronto a vestir Por Fi Rios, situada na Rua de Santa Catarina, no Porto, transcendeu a mera função comercial, constituindo-se como um emblema da modernidade e da efervescência sociocultural que varreu Portugal a partir de meados do século XX.

​O estabelecimento iniciou a sua actividade aproximadamente na década de 1950 sob a designação primitiva de "Porfírios das Meias" (alusiva ao seu fundador, Porfírio Augusto de Araújo). Contudo, foi a partir de 1965/1966, com a sua expansão e a adopção do nome "Porfírios-Contraste" (ou Por Fi Rios), que a loja se metamorfoseou num centro catalisador de tendências.

​A sua relevância histórica reside na importação pioneira de vestuário e acessórios que reflectiam as correntes da moda jovem internacional, particularmente a estética da swinging London. A Por Fi Rios era o repositório por excelência das peças mais audazes, desde as calças boca de sino e as mini-saias às cores vibrantes, desafiando o conservadorismo indumentário vigente.

​O ambiente interno do estabelecimento era, por si só, uma experiência inovadora: o recurso a iluminação de luz negra e a reprodução de música contemporânea criava uma atmosfera sensorial, atípica para o comércio da época. O rigor no styling do seu próprio pessoal cimentava o seu estatuto de vanguarda.

​A Por Fi Rios encerrou as suas portas, pondo fim a uma era no comércio portuense, no ano de 2001. Deste modo, a loja não foi somente um entreposto comercial; funcionou como um fenómeno sociológico que ditou os cânones da moda de uma geração, deixando um legado indelével na história social e urbana do Porto.

A Livraria Lopes da Silva na Rua Chã: Uma Instituição no Contexto Urbano Portuense

Livraria Lopes da Silva, situada nos imóveis sob os números 101 e 103 da histórica Rua Chã, no coração nevrálgico da cidade do Porto, constituiu um relevante polo de difusão de conhecimento especializado.

​Formalmente reconhecida pela sua especialização, a livraria dedicava-se à comercialização de literatura técnico-científica e manuais de ensino escolar, suprindo uma necessidade crucial da comunidade académica e profissional da época. O seu acervo era notavelmente enriquecido por obras voluminosas de proveniência estrangeira, nomeadamente nas áreas de desenho e ciências médicas, servindo como um recurso bibliográfico de excelência para o estudo aprofundado e a curiosidade intelectual.

​A gestão do estabelecimento estava a cargo dos proprietários, D. Guilhermina e o Sr. Moreira, que habitavam as dependências superiores do edifício, utilizando o primeiro piso como armazém, numa conjugação típica entre habitação e atividade mercantil. O escritório, curiosamente, situava-se num prédio fronteiro.

​A cultura laboral da casa distinguia-se pela sua índole humanitária; a proprietária assegurava diariamente a distribuição do lanche aos seus colaboradores, um gesto que sublinha a dimensão social e familiar da instituição. Detalhes do espaço, como a rica decoração em madeira das vitrines interiores e a presença de um cofre de barro em forma de boneco representando um preto, no balcão elevado (destinado a recolher contribuições para missões humanitárias em África), ilustram as convenções estéticas e sociais da época.

​A Livraria Lopes da Silva transcendeu a mera função comercial, inscrevendo-se na memória coletiva como um dos esteios do circuito erudito do Porto, onde o comércio especializado se interligava com o quotidiano e as práticas de mecenato social.